Café Espanhol

22 Outubro, 2007

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Decido pelo café espanhol, transbordante de leite condensado e sento à mesinha pequena, um tanto afastada dos demais freqüentadores. A atendente logo traz a xícara fumegante, com o cheiro inconfundível da bebida escura misturada à viscosidade do leite adocicado. Enquanto beberico o primeiro gole quente, minha visão desvia-se para o casal sentado em frente à minha mesa.

Ele tem seus quarenta e tantos anos e seus movimentos são facilitados por um abrigo de tactel ordinário em diversos tons e sobretons de azul, daqueles vendidos em lojas cujos funcionários apregoam descontos e ofertas imperdíveis em plena calçada. Os cabelos grisalhos, pela altura do queixo, escondiam um rosto magro e insípido, cuja boca nervosamente digladiava com a mulher à sua frente. Sorvo meu café, que está um tanto mais frio. Olho de soslaio, como quem não quer nada, novamente à espreita.

Disfarçadamente analiso a mulher: toda de preto, veste uma saia com uma fenda que se estende até à metade da perna. Somente seus sapatos, caramelos, destoam da vestimenta escura e triste. Ela segura a xícara com as duas mãos, como uma criança segurando um frágil bibelô de louça, valioso demais para as mãos infantis. Seus olhos mal pousam nos olhos do homem à sua frente. Sua boca, emudecida, é um fino risco rubro que nada retruca. Somente cala e consente às palavras rispidamente desferidas pelo outro.

Desvio o olhar, que teima em procurar a intimidade alheia. Olho nervosamente para a mesa ao lado, onde um grupo de sessentões alegremente diverge sobre política, políticos e eleições. Procuro não demonstrar pressa para trazer o casal ao meu campo de visão novamente. Quando isso acontece, me deparo com a mesa semivazia. O homem se fora e não presenciei sua saída antecipada. Teria sido abrupta? Ele teria se despedido dela? O olhar perdido e ausente da mulher me diz que não. Parecia explicar a si mesma o que acontecera. Seus olhos vagavam em um espaço sem explicações ou conforto.

Beberico meu café novamente. O leite condensado já se unira ao café, e juntos formavam um líquido marrom-claro, adocicado, que me fazia lembrar a infância e seus cheiros inimitáveis. Pouso a xícara no pires e meu olhar encontra a mesinha em frente totalmente vazia. A mulher também se fora. Não a vira sair. Teria levantado atropeladamente? Ou seu levantar teria sido digno e clássico, sem demonstrar as mínimas nuances que denunciam o buscar de quem se ama? Na mesa, o café pela metade, um croissant mordiscado levemente. Como alguém que sai às pressas e não tem tempo de recolher a vida e carregá-la consigo.

Termino o café, saboreando lentamente o gosto adocicado que preenche todas as cavidades de minha boca. Levanto, pego bolsa, sacolas e deixo a cafeteria. Lá fora, o sol se põe em tímidas nuances avermelhadas e é acompanhado de uma brisa fria, mas inexoravelmente confortante. Ando sem pressa, a refletir que certos amores são como o café espanhol experimentado a pouco: uma mistura de substâncias em que o suave é deliciosamente tragado pelo consistência do marcante ou – resultado de escolhas irrefletidas – uma união de sabores em que o adocicado e mais fraco declina eterna e ilimitadamente em favor do mais forte.

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