O I Ching leu o meu destino

30 outubro, 2007

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Ela apostou no I Ching. Esses jogos de adivinhação e misticismo oriental, além de traduzirem mais charme, pareciam estar acima da vã intelectualidade euro-americana de tudo explicar e traduzir. Haviam coisas que permaneceriam acobertadas, soterradas por quilos e quilos do que o bom senso e o estilo clean, tão característicos do way of life ocidental limpo de borrões e equívocos, não conseguiam descobrir. Parecia sempre haver um mistério, negro e insondável, por trás das cantilenas místicas advindas do Oriente. Era isso que a atraía, essa adivinhação que se mostrava irresoluta, como que escrita pelo chumbo dos milênios. Ela revirou as cartas, da forma que exigia o figurino do I Ching em estilo fast food, até ele contaminado pela instantânea e insípida forma ocidental de desenrolar a vida. Deu de ombros. Seus pudores e radicalismos não a impediriam de alcançar as respostas que buscava só porque os meios não eram os ideais. Os fins justificavam trocar o método original, jogado com desgastadas moedas de prata, pela coleção de pequenos papéis que agora resultavam espalhados a sua volta.

Entre salamaleques e revorteios, a pergunta martelava na cabeça: ele me ama? Ele me quer? Ele me espera? Ali, em meio ao torvelinho que era a mistura de cartas vermelhas manchadas de desenhos orientais em amarelo, ela pouco intuía o que o mundo, síncrono e esperto, do tipo velha raposa que ri por trás de olhos semicerrados de prazer leitoso, lhe preparava. Dentre todas as cartas, a escolhida a esmo lhe era destinada. Buscou-a entre pares e pares de suas iguais, todas em um papelão velho, que aos poucos, se enrugava nos cantos. A pergunta não lhe abandonava os instintos. Ele me deseja? Me busca para sempre, curva e envelhecida, a preparar ervas para esmorecer a dor e o desassossego de rins, fígado e medula? A pergunta ainda martelava obstinada em sua mente quando escolheu uma que, à primeira vista de quem busca, se sobressaía.

Virou-a rapidamente, contrariando seus valores em favor de uma rotina desacelerada. Hsien, dizia a carta. Hsien, a atração. Nesse instante, seu coração se torceu em síncope. Porque não o amor, a sabedoria, a prudência? Porque a atração, valor tão mundano e imundo, carregado de traduções pejorativas? A pulsação desacelerou quando seguiu na leitura dos significados que o pequeno pedaço de papelão lhe trazia. A figura trazia um homem e uma mulher. Era uma situação de galanteio. Não poderia haver imagem mais explícita. No entanto, as palavras subvertiam a figura. A mensagem, clara e límpida, combinada à ilustração em estilo oriental, cheio de árvores derramadas e casas com telhados pontiagudos que se estendiam pelas horizontais, falava em se submeter à paciência. Aludia a uma existência, sim, perene e exitosa, se soubesse impor suas vontades de forma refinada, nas entrelinhas de quem conquista como se soubesse que tudo está lá, escrito nas estrelas, e jamais pudesse receber uma rápida pincelada de errorex.

Respirou fundo, um sorriso produzido pelo sentimento inebriador da esperança. Amanhã seria outro dia a perguntar-se, de forma inquisidora, se ele o desejava e em qual freqüência e circunstância e intensidade. Hsien, no entanto, lhe ensinara que não mais existiam perguntas quando a persistência e a paciência, gêmeas da mesma inicial, lhe fizessem companhia. Ela esperaria como que tem os séculos à disposição. Ela agarraria a velocidade da rotina e a domaria, como quem intui, ao modo sereno dos velhos monges budistas, que o destino é uma questão de tempo e equilibrada vigília.

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Discursos inumanos

25 outubro, 2007

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“Cada vez que ouço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, sinto-me apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo que jogam, essa que é a verdade, que jogam com toda uma parte de sua vida e dos seus interesses chamados vitais.”

Albert Camus

É por vislumbrar a verdade nas palavras de Camus que ainda não consigo me abster de pensar e agir politicamente.

Do supérfluo à realeza

24 outubro, 2007


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Não assassinem o português perto da Luciana”, alerta um depoimento no meu perfil do Orkut. Realmente, o que mais me deixa “fora de mim” é encontrar um “cafezinho” com acento, um assessoria com “C” no lugar dos dois primeiros SS e coisas do gênero. O “vamos estar comprando”, o gerundismo odioso fruto do telemarketing mal traduzido do inglês me deixa em coma eritomatoso. Por que isso acontece comigo? Será por eu ser redatora?

Não abracei o ofício de redatora publicitária por acaso. Um pai jornalista, que adorava ler, me passou o vírus crônico da leitura. De leitora ardorosa passei, obviamente, a escrever. E ao chegar à época do “ser ou não ser, que profissão seguir?” já sabia de antemão que tinha de ser algo que aliasse criatividade com muita escrita. Na minha cabeça adolescente, era certo que tinha de ser publicidade, profissão de status, ar glamouroso, do jeito que adolescente gosta. Adotei o curso a fim de me tornar uma primorosa escritora de roteiros. Mas me descobri logo cedo adorando rebuscar chamadas, copisdecar o texto horrível – ops, amador – enviado pelo cliente e, claro, escrever roteiros de todos os tipos, dos institucionais de cinco minutos aos spots de trinta.

Hoje, depois de oito anos na estrada que leva ao País das Maravilhas da Escrita, penso o quão é difícil encontrar um publicitário que oficialmente se declara como redator. Pseudo-redatores existem às pencas: o cara que vagou do atendimento à mídia, passando pela produção e, claro, pela direção de arte. Passou quatro meses na redação enquanto a redatora da agência gozava de licença-gestante ou nos seis meses em que o redator oficial foi fazer um intercâmbio na Inglaterra. No currículo, se auto-intitula redator quando a vaga de emprego assim o exige.

Nada contra, principalmente se o profissional em questão reuniu tantas experiências na época da graduação, como reza o manual do estagiário. Mas nada a favor se a área de atuação varia conforme a maré convém. Sou do tipo que acredita que profissional Bombril não é profissional algum. Um médico não se torna dentista por tratar de afecções da boca. Da mesma forma, a redação tem manhas e sutilezas que só muitos anos da mesma atividade, da escrita incansável, da leitura de livros de ficção, técnicos, e das idas constantes a dicionários, gramáticas e manuais de redação e estilo ensinam.

Esse entendimento falta ao mercado publicitário como um todo, com exceção das grandes e de algumas agências de porte médio, que já descobriram que redator bom não se faz da noite para o dia. No entanto, se a demanda é grande e a oferta de redatores é escassa, certamente o furo é mais embaixo. Um deles talvez seja a formação superior.

Em palestras para alunos de publicidade e propaganda, não é difícil constatar qual área mais seduz os jovens aspirantes a publicitário. A grande maioria acha o máximo dominar o Photoshop, o Ilustrattor e os demais softwares utilizados para manipular imagens e criar layouts. Uma minoria almeja o posto de atendimento, mídia e produção. E o mercado clama por excelentes atendimentos, por produtores tarimbados e profissionais de mídia primorosos.

Do mesmo mal sofre a redação. Pergunte em uma sala abarrotada de alunos de publicidade quantos querem ser redatores. Uma meia dúzia de gatos-pingados – daqueles que gostam de escrever e resistiram a seguir o caminho do jornalismo, mesmo ele sendo “cívico-cidadão-e-não-mercenário-como-a-propaganda” – levantará a mão, alguns muito timidamente. E o mercado passa sufoco atrás de redatores com experiência, experts em resolver, de forma criativa ou apenas “honesta”, os diferentes desafios textuais que caem em sua mesa.

Então é a escassez de profissionais da redação que impele a maioria das agências a aderir à fórmula fácil do “uma imagem vale mais do que mil palavras” combinada com o clássico “reduz esse texto, uma linha tá bom” que todo redator já cansou de ouvir na vida?

Nada. O que há é a miopia generalizada, como a cegueira contagiosa criada por Saramago. Uma miopia teimosa, que continua a insistir na fórmula surrada de muita imagem-pouco conteúdo, que raramente cria laços afetivos com o consumidor. Miopia que tem levado os anunciantes em direção a ações de guerrilha, live marketing, ações no PDV, campanhas online e tudo o mais que não inclui TV e publicações impressas.

Nesse contexto, redatores se tornam supérfluos para muitas agências tradicionais, mas voilá, extremamente necessários quando se trata de agências e empresas especializadas em ações de não mídia, as chamadas mídias não-mensuráveis (ver textos a respeito nesse e nesse link). O motivo é simples. Não mídia clama por produção de conteúdo, por projetos digitais – blog, ações virtuais, redes de relacionamento, etc. – que tem como principal forma de comunicar a palavra.Exige profissionais que saibam escrever, dar sentido a projetos que, felizmente, não são mais baseados apenas em imagem. Não mídia exige texto de verdade, e não o texto criado pelo cliente que muita agência ainda teima em aproveitar em peças gráficas. Brada por profissionais que realmente entendem de texto, que fazem da leitura sua espada e da paixão pela escrita seu baluarte. E nessa nova forma de fazer comunicação, se redator não é rei, no mínimo integra o grupo seleto da realeza. E não é com título comprado, não senhor.

Existir cansa?

23 outubro, 2007

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“Tenho dó das estrelas,

Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo…

Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço

Das coisas,

De todas as coisas,

Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser,

O ser triste brilhar, ou sorrir…

Não haverá, enfim,

Para as coisas que são,

Não a morte, mas sim

Uma espécie de fim,

Ou uma grande razão –

Qualquer coisa assim

Como um perdão?”

Fernando Pessoa

Café Espanhol

22 outubro, 2007

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Decido pelo café espanhol, transbordante de leite condensado e sento à mesinha pequena, um tanto afastada dos demais freqüentadores. A atendente logo traz a xícara fumegante, com o cheiro inconfundível da bebida escura misturada à viscosidade do leite adocicado. Enquanto beberico o primeiro gole quente, minha visão desvia-se para o casal sentado em frente à minha mesa.

Ele tem seus quarenta e tantos anos e seus movimentos são facilitados por um abrigo de tactel ordinário em diversos tons e sobretons de azul, daqueles vendidos em lojas cujos funcionários apregoam descontos e ofertas imperdíveis em plena calçada. Os cabelos grisalhos, pela altura do queixo, escondiam um rosto magro e insípido, cuja boca nervosamente digladiava com a mulher à sua frente. Sorvo meu café, que está um tanto mais frio. Olho de soslaio, como quem não quer nada, novamente à espreita.

Disfarçadamente analiso a mulher: toda de preto, veste uma saia com uma fenda que se estende até à metade da perna. Somente seus sapatos, caramelos, destoam da vestimenta escura e triste. Ela segura a xícara com as duas mãos, como uma criança segurando um frágil bibelô de louça, valioso demais para as mãos infantis. Seus olhos mal pousam nos olhos do homem à sua frente. Sua boca, emudecida, é um fino risco rubro que nada retruca. Somente cala e consente às palavras rispidamente desferidas pelo outro.

Desvio o olhar, que teima em procurar a intimidade alheia. Olho nervosamente para a mesa ao lado, onde um grupo de sessentões alegremente diverge sobre política, políticos e eleições. Procuro não demonstrar pressa para trazer o casal ao meu campo de visão novamente. Quando isso acontece, me deparo com a mesa semivazia. O homem se fora e não presenciei sua saída antecipada. Teria sido abrupta? Ele teria se despedido dela? O olhar perdido e ausente da mulher me diz que não. Parecia explicar a si mesma o que acontecera. Seus olhos vagavam em um espaço sem explicações ou conforto.

Beberico meu café novamente. O leite condensado já se unira ao café, e juntos formavam um líquido marrom-claro, adocicado, que me fazia lembrar a infância e seus cheiros inimitáveis. Pouso a xícara no pires e meu olhar encontra a mesinha em frente totalmente vazia. A mulher também se fora. Não a vira sair. Teria levantado atropeladamente? Ou seu levantar teria sido digno e clássico, sem demonstrar as mínimas nuances que denunciam o buscar de quem se ama? Na mesa, o café pela metade, um croissant mordiscado levemente. Como alguém que sai às pressas e não tem tempo de recolher a vida e carregá-la consigo.

Termino o café, saboreando lentamente o gosto adocicado que preenche todas as cavidades de minha boca. Levanto, pego bolsa, sacolas e deixo a cafeteria. Lá fora, o sol se põe em tímidas nuances avermelhadas e é acompanhado de uma brisa fria, mas inexoravelmente confortante. Ando sem pressa, a refletir que certos amores são como o café espanhol experimentado a pouco: uma mistura de substâncias em que o suave é deliciosamente tragado pelo consistência do marcante ou – resultado de escolhas irrefletidas – uma união de sabores em que o adocicado e mais fraco declina eterna e ilimitadamente em favor do mais forte.