Quando você iniciou em mim

12 dezembro, 2007

alma.gifalma.gifcoracao.jpgEla sabia tão pouco dele. Mas o pouco que existia já cabia na vontade de se apaixonar.

Eles se conheceram numa festa. Daquelas à la Renato Russo, estranha, cheia de gente esquisita. E quando ela recém iniciava uma ida em busca de birita ele a interpelou no bar. Pediu nome, se apresentou, do jeito que pede o riscado. Pediu para aguardar, já que logo se desfaria da portaria.

Ela esperou. E com a espera vieram os sobressaltos, as dúvidas de assalto. Pensava: “O que quer ele de mim?” Nada. Não haviam respostas, nem mesmo nas jogadas de búzios.

Ela resolveu esperar. Apostou todas as fichas. Como dizia aquela música do Tequila Baby, “não venha de carta marcada”. Ela não veio. Não marcou carta, não consultou orixás, não negociou com numerologia. Simplesmente ficou ali, à mercê, como quem espera a sela certa para montar. Mas não havia príncipes cavalgando cavalos brancos.

Só havia ele, que retorna.

Iniciam uma conversa cheia de segundas intenções. Ela fala de ex-amores, quem sabe para despistá-lo. Ele resolve utilizar a artimanha do egoísmo, oferecendo-se para uma noitada em que o prato principal seria ele, em uma bandeja.

Ela titubeia. Teme arriscar. Essas noitadas de sexo selvagem e alguns segredos trocados não dão em boa coisa. Geralmente terminam com a donzela cheia de sorrisos por um “quero mais” e o cavaleiro à distância, ocupado em desbravar novas pradarias.

Ela pensou duas, três, quarenta vezes. O sorriso em sua frente dificultava qualquer resposta. O branco de seus dentes a fazia voltar atrás em seus princípios, em seus valores, em tudo que lhe existia de mais caro. Ela já havia prometido a si mesma: “Nunca mais noitadas cheias de arroubo”. Roubavam seu coração, quando o mais certo era apenas entregar seu corpo. Que pilhassem suas carnes, seu gozo, e a deixassem inteira com suas histórias, suas significâncias.

Ele insiste. Seu cheiro de sálvia e sândalo a interpela diversas vezes. Entra por todos os buracos de sua cabeça, como diria Fernanda Abreu. Sua presença morena, além de negra em função de vestimentas, de pêlos que tocam seu braço e a arrepiam de maneira jamais sentida, não fazem mais sentir dona de si. Ele já é o onipresente senhorio dela.

Conduzida por aromas, temas e teoremas, ela se deixa levar. Mergulha em meios a sussurros desconexos, frases sussurradas e toda uma parafernália de roubos e arroubos que uma noitada com um desconhecido pode proporcionar.

Ao findar a noite, ela bebe sedenta o seu nome. Explora recantos secretos, cheiros escondidos.Enxerga-se no olhar meio ternura, meio Inquisição dele. Sua viagem não termina no êxtase, nem nas frases proferidas em meio a sentimentos avassaladores, que a fazem sentir-se mais mulher que menina. Ele já não é mais um desconhecido. Cada recôndito do corpo dele encerra uma promessa de retorno, uma despedida que acena brevemente, certo da presença que há de regressar.

Ela beija seus olhos, suas pupilas sedentas de mais prazer. Ela repousa os lábios em sua axila, em seu cheiro que é árvore tombada no meio da estrada. Seus dedos escorregam entre pêlos e pensamentos. E nesse momento percebe que já o conhecia do início do mundo, do tempo em que os homens, bestas em quatro patas, farejavam o amor como quem intui o prenúncio de uma nova era.

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