Eu te amo

22 janeiro, 2008

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Eu te amo e a frase ecoa segundos afora

Eu te amo e tudo se solucionará

Eu te amo e faço dessas minhas últimas palavras

Eu te amo e teu cheiro brinca em minhas mãos

Eu te amo e quero que tudo mais vá para o inferno

Eu te amo e as sílabas sibilam, revoltam-se, rebolam em minha língua

Eu te amo e sinto todos os pesares, as culpas, as faltas que cometi

Eu te amo e teu corpo é café da manhã que devoro sem pressa

Eu te amo e acendem-se as luzes do cinema barato que freqüento às terças

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“Nada é impossível mudar
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertolt Brecht

Brecht se referia à política, à sociedade, mas acredito que o não perceber e compreender o outro, aquele ser com que se trafega em dupla pelas vias do amor, do enamoramento, da paixão, também jamais possa ser considerado natural.

Desamor

8 janeiro, 2008

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Ela intuiu sua chegada. E os minutos marcavam a eternidade em que ele se demorava ali. Resolveu assomar pela porta. Ao primeiro barulho, o olhar alerta dele irrompeu no pequeno espaço entre a grade, o corredor e a escada em caracol. O conhecido e esquecido frio ondulou na barriga e fez em pé a penugem do braço. “Ainda me sinto assim”, pensava, querendo assumir-se distraída, como se o calafrio fosse causado por simples passagem de ar gélido, daqueles que surgem sem se saber de onde. Quanta tolice.

Ela desceu a escada, entre vacilante, ansiosa e destemida. Imaginava-se desfilando, e o olhar dele descortinando cada pedaço seu que de em pouco em pouco se descobria. Um pé, mais outro pé coberto de sandália vermelha, agora um pedaço da barriga da perna, o restante em seguida, o joelho, a cintura fina, a barriga chata, os poucos seios teimosos que tentavam projetar-se pra frente, os ombros erguidos, quase pose de rainha.

Se encontraram frente a frente e para ela teimava em parecer a primeira vez. Havia um cavanhaque em seu queixo, quê de ousadia em plena terça de manhã. Ele nunca lhe parecera tão belo, e a sensação lhe fez tremer o lábio, o qual mordeu internamente para que se mantivesse firme. Buscou sua boca e ele ensaiou um beijo de apresentação, desses de quem recém se reconhece parceiro de negócios. Ela não estranhou, sorriu até, enquanto ele segurava sua mão. Trocaram meia dúzia de palavras, todas mal ditas, mal escolhidas, como se tivessem tanto a dizer e, ao mesmo tempo, muito a esconder. Ela se despediu, não sem antes dizer que ele tinha o rosto em vermelho. Seria sol, indagou. Sua boca negativou. A ela, agora, pareceu que o rubor escondia vergonha. Exato, havia vergonha e timidez em seus gestos, na respiração, na forma como o corpo balbuciava. Ela se despediu sem voltar-se para trás, sem sorrisos ou olhares de quem se conhece a eternidades.

De volta ao computador, seu cheiro irrompia, serpenteava, danosa serpente a oferecer o fruto do destempero. Destempero, sim, porque com custo devorava a impulsividade de voltar e navegar em seus odores, no cheiro oloroso que teimava em lhe provocar, enquanto os olhos percorriam as palavras no dicionário eletrônico atrás de sinônimos para desamor.

Os olhos buscavam – desacomodar, desacompanhar – e nos fones a letra martelava “That I’m so easy to please, so easy”. Ela espalhou a lágrima que principiava a escorrer, disfarçando o que se passava. Não seria taxada de insana, nem despertaria a curiosidade e a morbidez alheia no pouco tempo que trabalhava ali.

O choro foi engolido firmemente, enquanto buscava pensar em amenidades, o filme que assistiria no cinema alojado no pequeno shopping da cidade, a conta de luz que precisava resgatar da caixa de correspondência, os telefonemas pra hora na manicure e pra consultar o dentista gordo que sempre repetia a mesma cantilena a respeito de sua história povoada de tristezas & provações.

Desalojar, desalmado, desalterar. Os dedos prosseguiam na busca do significado que teimava em se revelar pelo ouvido e que talvez explicasse, na forma de gráficos, diagramas, mapas mentais, a angústia que transportava junto ao corpo aonde quer que fosse. “Tão fácil de agradar”, repetia a música. A descoberta fez rolar a lágrima que desejava brincar de esconde-esconde em seu olho. Havia acabado de achar o sinônimo para desamor.