Pelo telefone

26 fevereiro, 2008

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Oi. Não, não sei, mas acho que nada está bem ainda. Porque digo isso? Talvez por me encontrar à beira do abismo. Lá vem você com a história que faço dramas. Não faço isso, nem histórias. Há tempos extingui essa habilidade de minha lista de qualidades. Sei que tenho positividades, não há de ser você a me confirmar isso. Ok, ok, desculpe, estou lhe ofendendo novamente. Desculpa, eu sei. Virou hábito, que há de se fazer. Perdi o fio da meada. Perdi a chavezinha que desligava qualquer tentativa de lhe fazer mal. Eu te odeio? Não. Nunca. Não consigo sentir isso por ti. Olha, é preciso muito esforço pra isso. E por ti, não quero fazer mais nada que exija demasiada força, extenso comprometimento. Desisti de nós? Não, não. Nada disso. Que inverdade é essa? Ouviste eu dizendo isso? É, isso mesmo, que bom que concordas. Agora deixa eu te explicar, de forma miúda, para não haver erros de entendimento. Desisti, sim, de te amar incondicionalmente. Sim, é isso que ouviste. Só existia “nós” porque te amava de forma irracional. Porque te esperava como quem alcanças luas e sóis todos os dias. Porque te pensava como desses quadros que só quem compra lhe põe devido valor. Exatamente assim, escute: havia a impressão que só eu enxergava tuas qualidades, teu jeito de sorrir encabulado. Porque a mim parecia que precisava te revelar ao mundo, te pegar pela mão e cuidar de fazer existir teus desejos. Se ainda sinto isso? Acho que sim, mas de outra forma. Mas por enquanto ainda está adormecido, e há de ressonar algumas semanas. Tomou um vidro de Lexotan, Neozine, dessas porcarias mais antigas que se ingeria para esquecer verdades. Não, não é tua culpa, não digas isso. Não te culpes. Há serenidade em mim. Há certezas que não haviam antes. Desculpa, não sei se quero revelá-las. Tudo bem, eu sei que nos contávamos tudo. Mas nada de sobressaltos, sossegues, haveremos de fazer isso ainda sempre. Sim, isso mesmo, isso de beber cerveja enquanto se discute vãs filosofias, de dividir pertences, de emprestar sonhos um ao outro. A diferença é que dessa vez será de forma madura, sem esquecer do eu que deve ser carregado quando levo a ti. Não compreendes? Quando chegar a hora, hás de entender. Eu sei, tenho o hábito de falar por metáforas, uso formas complicadas, subjetivando, me esvaindo em camadas mais profundas. Não, não se trata de fuga. Talvez seja hábito de embelezar as verdades, fazer pilings orais, dessas habilidades que muitos chamam retórica, outros erudição, meia dúzia nomearia arrogância. Mas voltando da digressão, tenho certeza de que será consciente, nada irracional, que estou farta dos esqueletos escondidos no armário. Será diferente. Não sei como. Mas pressinto que chegará aos poucos, como esse anoitecer que se desdobra agora. Vês ele também? Aqui ele surge preguiçoso. Percebes o ritmo? Ok, sei que tens de desligar. Faça-o por mim. Estou à espera. Mas antes, escute: não se sinta obrigado. Não deves nada a mim. Talvez, sei lá, apenas a rosa que não colheste e não me entregaste toda vez que passava em frente à casa florida, com aquele cheiro de vida recém cortada invadindo minha manhã. Foi mais um surto digressivo? Não, não, talvez a constatação tardia, ou análise errônea, fruto da distância, de erros crassos, de saber o quanto de poesia poderia ter existido em nossa vida. Não, não digas que tenha sido tua culpa. Acho que mais minha, por intransigências, por medos, pelo andar em círculos, naquela metáfora eterna do cão buscando seu próprio rabo. Ok, sei, tens de ir. Deixe que eu fique aqui, escrevendo as respostas para mais uma de nossas conversas pontuadas de interrogações, descobertas, mistérios. Mas prometo, é minha última frase, só deixes que eu te lance uma última pergunta. Não, não quero que respondas agora, só tenho por isso que reflitas a respeito, revolva bem teus desejos íntimos, bagunce tuas certezas, esculhambe com os padrões oficiais e esperados: ainda queres continuar a escrever nossas conversas comigo?

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