Atrás do seu olhar

26 novembro, 2008


pedro1O bar fedia a fumaça, espessa e ocre. Ela se despediu da amiga ao telefone e subiu os últimos degraus, adentrando no ambiente colorido e parcamente iluminado. “The beauty a gray”, “The beauty a gray, hey now”, cantarolava o vocalista de uma banda desconhecida ao microfone martelando um refrão conhecido da Live, a melhor banda pós-Nirvana dos anos 90. A turma já havia escolhido uma mesa bem central, protegida de um spot de luz por uma parede que trazia um pôster antigo e descascado de Pearl Jeam. O ambiente lhe era familiar. Curtia aos extremos desses bares soturnos que escondiam a noite tendo como trilha de fundo os acordes do rock’n’roll, tanto faz se na forma de roupagens novas e levemente eletrônicas, ou o rock pesado e obscuro que ela imediatamente ligava à Inglaterra, aos pubs londrinos em que uma mulher podia beber uma caneca de cerveja sem parecer uma alcóolatra.

Ela olhou a fauna ao redor. Três meninas arrulhavam olhares sentadas em um sofazinho à direita. Uma turma de 20 e poucos anos acotevelava-se ao redor de uma minúscula mesa redonda. Dos dez ocupantes, dois disputavam uma demorada partida de xadrez em meio ao burburinho das vozes que aumentavam de volume toda vez que o vocalista da banda desconhecida empunhava novamente o microfone. No balcão perdido no meio da sala e iluminado por um dos poucos pontos de luz do escuro ambiente, dois rapazes, um ruivo de cabelos curtos e um moreno vestindo uma camiseta em que se lia em letras garrafais “I Love Black Sabbath”, dividiam uma cerveja. No canto do mesmo balcão, protegido pela escuridão proporcionada pela luz que não o alcançava, um sujeito de camisa verde claro e bigodinho perdido sobre a boca terminava uma dose de uísque, tendo ao colo um daqueles bizarros blazers pretos de couro que denunciam funcionários públicos, bancários e contabilistas.

Sentou-se em meio aos amigos. Já estavam na segunda rodada de cerveja. Bebiam em pequenos copos, desses que em padarias próximas à Avenida Paulista se serve café com leite. Pediu ao garçom um copo igual. Ele assentiu com a cabeça, e ela viu seus compridos cabelos encaracolados que caíam sobre a camisa xadrez desaparecer por trás do balcão. Em minutos o garçom depositou o copo à sua frente. Em minutos ela exterminou a cerveja gelada que seu amigo, diretor de arte recém-chegado de dois longínqüos e intermináveis anos na Irlanda, despejava em seu copo. O líquido gelado escorria pela sua garganta e deixava-a, aos poucos, levemente entorpecida. Olhou com olhos inquietos o relógio. Os números em vermelho do mostrador digital mostravam dez para as onze e nada dele aparecer. Ela tinha vindo essa noite porque sabia de sua presença na mesma mesa em que agora, entre indecisa e cada vez mais falante devido aos copos de cerveja gelada que não paravam de ser esvaziados, se perguntava se realmente seria interessante & correto & edificante & benéfico& saudável para sua paz de espírito se meter com ele.

Não teve tempo de refletir, pois ele já invadia a mesa com sua voz rouca. Trazia um tricot verde escuro no braço, e parecia ainda mais jovem metido na t-shirt branca encardida que usava. Cumprimentou a todos e o olhar intensamente verde que trazia durante poucos segundos aprofundou-se nela. E durante frações de segundo que o tilintar do coração definiria como interminável caso decidisse imitar e parar de bater, ela ficou sem ação. Não sabia se sustentava o olhar, encarando a altivez fingida dele com uma mentirosa arrogância de autoria dela. Não sabia se desviava o olhar e fingia concentrar todas suas atenções no casal de namorados que agora tomava a mesinha ao lado acompanhado de carícias explícitas. Não sabia se deveria saber alguma coisa. Cumprimentou-o fingindo leve descontração.

– Oi. Tudo bem?

– Olá, respondeu ele zombeteiramente. Então nos encontramos novamente.

Acentou o “novamente” com toque de ironia, como quem sabe que pega o outro numa mentira deslavada. Ela bebeu o resto da cerveja que já começava a esquentar. Sabia que de tanto bater seu coração havia parado, igualzinho ao título daquele filme romântico que ela sempre via na locadora e nunca levava. Em seguida, em mais um de seus interrogatórios íntimos e pessoais, em que ela encarnava a inquisidora-sado-masoquista, perguntou há quanto tempo os dois brincavam de gato e rato e o porquê dessas idas e vindas, de encontros e desencontros em que nada diziam e tudo queriam dizer. Não obteve resposta.

Só vislumbrou o motivo quando, depois de muitas cervejas, discussões acaloradas e roçar propositalmente descuidado de mãos, pernas e braços enxergou no fundo dos olhos dele a resposta, tão na cara quanto desses momentos em que se perdem os óculos e eles estão ali, às vistas, enterrados sobre a cabeça, e não há visão de raio-x que nos faça perceber. No fundo escuro da pupila dele, tão imerso quanto seres abissais que navegam profundezas oceânicas, ela percebeu que ali havia medo, um profundo, escuro e pegajoso medo quanto ao desconhecido e doce estrago que ela poderia fazer em sua vida.

Foi por isso, que quando a noite despachava seus personagens soturnos de volta pra casa, e ele perguntou como quem não quer nada, mas quer ouvir uma resposta que diga tudo, se ela tinha como ir embora, que ela respondeu, tenho, vou com Fernanda e Antônio. Porque ela já não era dessas mulheres que sim, dizia sim a uma carona já antevendo a despedida no portão seguida de um convite para curtir o cafezinho/a última dose/a saideira/um copo d’água logo ali, em casa. Porque era dessas mulheres que compreendem, seja num átimo de segundo, seja no vagar de uma consciência adquirida durante a noite, o mês, a vida inteira, que dois olhares que se desejam pela insensatez percebida no olhar um do outro, são um caminho sem volta em direção a mais extrema, irracional e interminável loucura.

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