28 julho, 2009

108247527_9763b5c460_b

Azuis

De repente, o pai interrompeu o lento caminho da sopa até a sua boca e olhou surpreso para a filha.

– O que é isso no seu rosto?

A mãe suspendeu a colher no ar, enquanto um sinal de interrogação crescia de forma gigantesca em seus lábios.

– São estrelas?, perguntou ela quase petrificada.

A jovem parecia não entender. Olhou para a janela.

– Estrelas? Onde, com todo esse Sol lá fora? (Cumpre dizer que havia Sol lá fora, mas eles tomavam sopa porque o inverno belga é de fazer renguear cusco.)

O tom surpreso na voz do pai foi aumentando.

– Mas isso é uma….tatuagem?!?

A mãe já engolia um soluço. Justo ela, uma menina que nunca criara problemas. Devia estar se drogando. Ou eram as más companhias. Sabia que não podia confiar no filho da vizinha do terceiro andar. Aquele menino de cabelo negro com a franja sempre caindo no olho pintado de lápis preto não podia ser boa coisa. Começou a gemer baixo:

– Eu não acredito que você fez isso.

A menina parecia aturdida.

– Como assim?

– Como assim digo eu!! Você vai ver como assim!, esbravejou ele, a raiva pulando no pescoço.

O pai avançou sobre a mesa. Pegou-a pelos ombros, sacudiu. Levou a menina até o espelho. Psssou a enumerar cada ponto negro no lado esquerdo do rosto da filha em voz alta:

– Assim: 18, 25, 39, 43… 56! 56 estrelas!!!!

A mãe já estava fora de si. Confiara tanto no bom senso da menina. Gritava:

– Como você pode fazer isso? Arruinando nossa família dessa forma? Os vizinhos! O que os vizinhos irão dizer?

A menina começou a chorar. No início, eram só algumas lágrimas. Mas agora ela berrava. Entre soluços abriu o jogo: havia pedido para fazer apenas uma estrela, mas adormecera. O filho da vizinha do terceiro andar tinha ido junto. Lhe dera um comprimido para apagar e não sentir dor. Quando acordara, estava assim.

A mãe agora beijava o rosto estrelado da menina. Sim, estava certa. Sua filhinha fora obrigada a ato tão abominável. Certamente o tatuador, essa gente sórdida e cheia de amigos drogados estava combinado com o filho da vizinha do terceiro andar. Tinha certeza. O pai já acionara a polícia, o juiz, os jornais. Queria a cabeça do tatuador.

Bastou um dia para o caso ganhar repercussão internacional. Jornalistas e blogueiros se enfrentavam na porta da casa atrás da melhor cobertura sobre o caso da jovem que pedira uma estrela no rosto e ganhara 56. Um estúdio já chamava seu melhor roteirista para transformar a história em filme, alertando os jovens para os riscos que corriam fazendo tatuagens. A ala direitista do Congresso belga já usava o caso para coibir a atividade desses marginais Um importante canal de televisão americano acertava os detalhes para transformar o caso em um especial à la “caso verdade”.

Na noite seguinte o pai, que agora já considerava a possibilidade de fazer a família entrar em um novo patamar financeiro pós-fama repentina, encontra a menina chorando copiosamente na cozinha. Passou a mão a na cabeça dela, em tom doce:

– Não chore, minha filha. Vamos ganhar tanto dinheiro com essa história que contrataremos o melhor cirurgião plástico do mundo para devolver seu rosto ao que ele era.

– Não é isso, pai.

– Então o que é, meu reischunzel*? Fale para o papaizinho. Papaizinho não está mais chateado com você. (* Palavra belga para “meu bebezinho querido, lindo e doce que cresceu e continua querido, lindo e doce”.)

– Não, você vai odiar o que eu fiz.

– Não, papai não está mais bravo com sua tatuagem.

– Mas não tô falando da tatuagem, pai, negou ela suavemente.

– Não?, indagou ele entre surpreso e desconfiado. Então o que você fez que vou odiar?

– Eu menti.

– Filha, você está me deixando assustado. Mentiu a respeito de quê?

– Eu estava… Estava acordada quando fizeram a tatuagem em meu rosto.

Os grilos cricrilaram na rua. O pai entreabriu a boca enquanto via a casa nova que comprariam, a viagem tão sonhada ao Brasil, uma velhice tranquila, tudo, tudo indo água abaixo com a revelação. Não queria acreditar. Estivera tão perto e agora isso. Com voz embargada, cuspindo as palavras sílaba por sílaba, conseguiu enfim dizer:

– Por quê? Por quê inventar tudo isso?

– Eu queria me vingar.

– Vingar do quê, menina?, dizia lamentoso-enraivecido-incrédulo o pai.

– Me vingar porque ele entendeu errado a tatuagem que eu pedi.

– Mas o que você queria tatuar?, ele agora conseguia perguntar em meio à incredulidade.

– Borboletas, pai. 56 borboletas azuis.

(Texto inspirado em reportagem sobre a menina belga que tatuou 56 estrelas no rosto, disponível aqui.)

Foto: Butterfly Blue, de Mr. Greenjeans.

Anúncios