Machista

16 novembro, 2010

Tá, então vamos logo começar a história que tá todo mundo cansado e precisa dormir.  É, a mamãe precisa trabalhar cedo, você tem escolinha. Agora deixa eu pensar, hummm… Bom, tem aquela da fada que não sabia que a varinha de condão tava com defeito e transformou o príncipe num… Ah, essa eu já contei? Pôxa, que chato, Guto. Ai, ai, a memória da mãe tá parecendo o carro do vô Nereu, falhando toda hora. Deixa eu ver uma história que ainda não contei…. Ah, já sei. Essa era da minha infância. Cê não sabe o que é infância? É quando a mamãe tinha o mesmo tamanhito que você. É, sério, já fui dessa alturinha aí. A vovó Ana sempre dizia que a mamãe parecia botão de punho de camisa, bem pequeninho. Ok, vou parar de enrolar, vamos lá. Era uma vez… Não, Gustavo, a história tem “era uma vez”, mas é uma história diferente. Eu sei, mas é que toda história tem que ter um era uma vez no início. Não, ninguém vai pra prisão se não tiver era uma vez, tá bom? Fica sossegado. Agora pergunto: cê quer ouvir a história ou não quer? Tá, então retomando. Era uma vez uma princesa… Mas porque não dá pra ser princesa? Porque você é menino? Quem falou isso pra você? Ai, esse seu pai enfiando essa idéia machista na sua cabeça… Machista? Ah, machista é…Machista é um homem muito horrível que…Não, nada, vamos lá, eu vou contar a história do rei. Não, não vou contar a história do machista, Gustavo. Porque não. Isso, a história do machista o papai vai contar amanhã à noite para você. Agora presta atenção, vai começar a história do rei. Não, não sei se ele vai morrer no final. Por quê? Você quer que ele morra? Gustavo, a mamãe tá inventando a historinha na cabeça dela, por isso que o final não tá pronto ainda. Posso contar agora? Bom, vamos lá. No Reino das Cebolinhas vivia um rei… Quê? Amor, nem toda história precisa começar com era uma vez.  Tá, eu sei que eu falei que toda história tinha que iniciar com era uma vez, mas agora tô desfalando, certo? Ai, Gustavo, tá bom, já que você quer, eu uso era uma vez. Bom, começando: era uma vez um rei. O nome dele era Manoel Ernesto e o seu reino se chamava Reino das Cebolinhas. Tinha esse nome porque o reino IN-TEI-RO cheirava a cebola. Ãh? Sim, cebola é aquela coisa gosmenta que você não gosta de comer no molho. Mas é bom pra crescer e ficar forte, Guto, tem que comer. Bom, continuando. De manhã, o cheiro das cebolinhas era muuuito suave, mal dava pra sentir. Sabe blusa depois de lavar que continua tendo um rabinho de cheiro da mamãe e você adora abraçar pra dormir? Pois é, era assim. É que nesse momento as cebolinhas ainda estavam lá quietinhas, ressonando suavemente, sonhando com os banquetes do rei, aqueles jantares imensos em que elas sempre eram a atração principal. Você também queria participar de um banquete? Eu também, amor, mas agora presta atenção que vou continuar, já passou meia hora, você nem pregou o olho ainda. Ai, Jesus, esse guri não dorme nunca. Não, nada, Guto, tô falando que as cebolinhas adoravam dormir, agora presta atenção. Bom, quando chegava a hora do almoço, o cheiro de cebolinha no reino ficava cada vez mais intenso. Não desgrudava do nariz. Intenso? É forte. O cheiro ficava cada vez mais forte, entendeu? Forte feito o bicho-papão que come criança que vive interrompendo história que as mamães querem contar na hora de dormir.. Ah, cê não vai mais interromper? Então tá, vamos adiante. Além do odor fortíssimo, na hora do almoço todos os habitantes do reino das Cebolinhas choaravam. Por quê eles choravam? Calma, Guto vou chegar lá. Mas os habitantes desse reino não choravam porque gostavam, ou porque a mamãe deles tinha dado um castigo bem feio e triste – como ficar um mês sem brincar de imaginar o que vai ser quando crescer, ou porque eles eram obrigados a comer o que não gostavam, feito “certas pessoas”. Não, nada disso. Eles choravam… Sim, amor, agora eu vou dizer por que as pessoas choravam. Bom, eles choravam porque uma nuvem muito grande e molhada e branca cobria todo o reino e despejava sobre os habitantes uns pedacinhos minúsculos de saliva das cebolinhas, que falavam muito, muito, muito, enquanto tomavam café da manhã e aproveitavam para fofocar sobre as notícias que liam no jornal. O que elas liam? Não sei, amor. Deviam ler sobre o que aconteceu na novela. Isso, ou liam sobre receitas de comidas com cebolinhas. É talvez fosse isso mesmo. Bom, continuando… O quê, você quer ir no banheiro? Ai, Jesus, esse menino não fecha o olho. Não, não, tô falando que certamente as receitas eram de molho, molho de cebolinha. Isso, a mamãe tá falando da historinha ainda. Vai no banheiro, Gustavo, a mamãe te espera aqui. Só não demora. Não, a mamãe não vai contar o resto da historinha, pdoexá. Gente, tô pregada, esse menino não dorme. O que eu faço, Cristo? Tenho que pensar numa história bem chata, pra ele dormir logo… Ai, qual? Ah, já sei.. E então, fez xixi bonitinho, lavou a mão? Isso mesmo, senão a bactéria vem durante a noite e engole o Gustavo. Bom, então vamos lá, a mãe vai contar uma história incrível, pra você dormir logo. Não, a mamãe se enganou, não é pra dormir logo, é pra se divertir de montão. Vê só.  Tá preparado? Não, meu amor, não é a história do Reino das Cebolinhas. Presta atenção, mamãe vai começar: Era uma vez um machista…

Ilustração: Pupilas Gustativas

28 julho, 2009

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Azuis

De repente, o pai interrompeu o lento caminho da sopa até a sua boca e olhou surpreso para a filha.

– O que é isso no seu rosto?

A mãe suspendeu a colher no ar, enquanto um sinal de interrogação crescia de forma gigantesca em seus lábios.

– São estrelas?, perguntou ela quase petrificada.

A jovem parecia não entender. Olhou para a janela.

– Estrelas? Onde, com todo esse Sol lá fora? (Cumpre dizer que havia Sol lá fora, mas eles tomavam sopa porque o inverno belga é de fazer renguear cusco.)

O tom surpreso na voz do pai foi aumentando.

– Mas isso é uma….tatuagem?!?

A mãe já engolia um soluço. Justo ela, uma menina que nunca criara problemas. Devia estar se drogando. Ou eram as más companhias. Sabia que não podia confiar no filho da vizinha do terceiro andar. Aquele menino de cabelo negro com a franja sempre caindo no olho pintado de lápis preto não podia ser boa coisa. Começou a gemer baixo:

– Eu não acredito que você fez isso.

A menina parecia aturdida.

– Como assim?

– Como assim digo eu!! Você vai ver como assim!, esbravejou ele, a raiva pulando no pescoço.

O pai avançou sobre a mesa. Pegou-a pelos ombros, sacudiu. Levou a menina até o espelho. Psssou a enumerar cada ponto negro no lado esquerdo do rosto da filha em voz alta:

– Assim: 18, 25, 39, 43… 56! 56 estrelas!!!!

A mãe já estava fora de si. Confiara tanto no bom senso da menina. Gritava:

– Como você pode fazer isso? Arruinando nossa família dessa forma? Os vizinhos! O que os vizinhos irão dizer?

A menina começou a chorar. No início, eram só algumas lágrimas. Mas agora ela berrava. Entre soluços abriu o jogo: havia pedido para fazer apenas uma estrela, mas adormecera. O filho da vizinha do terceiro andar tinha ido junto. Lhe dera um comprimido para apagar e não sentir dor. Quando acordara, estava assim.

A mãe agora beijava o rosto estrelado da menina. Sim, estava certa. Sua filhinha fora obrigada a ato tão abominável. Certamente o tatuador, essa gente sórdida e cheia de amigos drogados estava combinado com o filho da vizinha do terceiro andar. Tinha certeza. O pai já acionara a polícia, o juiz, os jornais. Queria a cabeça do tatuador.

Bastou um dia para o caso ganhar repercussão internacional. Jornalistas e blogueiros se enfrentavam na porta da casa atrás da melhor cobertura sobre o caso da jovem que pedira uma estrela no rosto e ganhara 56. Um estúdio já chamava seu melhor roteirista para transformar a história em filme, alertando os jovens para os riscos que corriam fazendo tatuagens. A ala direitista do Congresso belga já usava o caso para coibir a atividade desses marginais Um importante canal de televisão americano acertava os detalhes para transformar o caso em um especial à la “caso verdade”.

Na noite seguinte o pai, que agora já considerava a possibilidade de fazer a família entrar em um novo patamar financeiro pós-fama repentina, encontra a menina chorando copiosamente na cozinha. Passou a mão a na cabeça dela, em tom doce:

– Não chore, minha filha. Vamos ganhar tanto dinheiro com essa história que contrataremos o melhor cirurgião plástico do mundo para devolver seu rosto ao que ele era.

– Não é isso, pai.

– Então o que é, meu reischunzel*? Fale para o papaizinho. Papaizinho não está mais chateado com você. (* Palavra belga para “meu bebezinho querido, lindo e doce que cresceu e continua querido, lindo e doce”.)

– Não, você vai odiar o que eu fiz.

– Não, papai não está mais bravo com sua tatuagem.

– Mas não tô falando da tatuagem, pai, negou ela suavemente.

– Não?, indagou ele entre surpreso e desconfiado. Então o que você fez que vou odiar?

– Eu menti.

– Filha, você está me deixando assustado. Mentiu a respeito de quê?

– Eu estava… Estava acordada quando fizeram a tatuagem em meu rosto.

Os grilos cricrilaram na rua. O pai entreabriu a boca enquanto via a casa nova que comprariam, a viagem tão sonhada ao Brasil, uma velhice tranquila, tudo, tudo indo água abaixo com a revelação. Não queria acreditar. Estivera tão perto e agora isso. Com voz embargada, cuspindo as palavras sílaba por sílaba, conseguiu enfim dizer:

– Por quê? Por quê inventar tudo isso?

– Eu queria me vingar.

– Vingar do quê, menina?, dizia lamentoso-enraivecido-incrédulo o pai.

– Me vingar porque ele entendeu errado a tatuagem que eu pedi.

– Mas o que você queria tatuar?, ele agora conseguia perguntar em meio à incredulidade.

– Borboletas, pai. 56 borboletas azuis.

(Texto inspirado em reportagem sobre a menina belga que tatuou 56 estrelas no rosto, disponível aqui.)

Foto: Butterfly Blue, de Mr. Greenjeans.

A última crônica

5 junho, 2009

A caminho de casa, decido tomar uma branquinha naquele boteco de Copacabana que recendia a velhos tempos, pululante do baixo clero de prostitutas, cafetões, traficantes e outros seres undergrounds que, como eu, trabalhavam nas imediações. Tinha ainda uma tarefa inglória pela frente, e adiava ao máximo o momento de iniciar. A crônica que escrevia semanalmente para um jornal mediano há muito havia deixado de ser a reafirmação para um futuro glorioso nas artes literárias. No início a euforia era crescente, e cada parágrafo escrito se tornava um atestado da minha capacidade de extrair o melhor da língua portuguesa. Eu seria um escritor famoso, e minhas rimas, expressões, frases que exprimiam todo o arsenal de sentimentos da alma humana seriam lembrados postumamente como um marco da literatura contemporânea. Quanta tolice. Agora me pesava a obrigação de escrever uma coluna que muitas vezes era suprimida em prol de uma cobertura mais extensa do último acidente aéreo ou do jogo que apontava o vencedor do campeonato carioca e que, quando muito, rendia três comentários na caixa de e-mails do editor do jornal. Sem falar que muitas vezes me via obrigado a escrever roteiros infomerciais para garantir meu ganha-pão.

Em casa o cenário de desesperança se repetia. No subir da noite sempre me esperavam dois tios velhos, bastante doentes, um deles ainda paralítico. Exigiam cuidados, atenção, alimentação especial. Integravam a herança de grego que eu havia recebido do meu pai. Ficavam os dois prostrados o dia inteiro em casa, esperando a vida decidir seu fim por eles. O que ainda caminhava passava o dia à janela, espionando a rotina que corria lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Uma moça bonita discute com o namorado. Um policial cobra propina de um comerciante da rua.

Ficavam nisso o dia inteiro, o tio que andava provocando inveja no outro, que muitas vezes fervia de ira e gritava impropérios. Então brigavam, se xingavam desenterravam episódios antigos de família. A vingança do mais velho era ficar dias sem ir à janela ou contemplá-la guardando o que via só pra si, soltando risinhos abafados ou comentando tudo em tom baixo, quase inaudível, de forma a provocar ainda mais o irmão.

Eu ruminava todo esse fracasso bebendo uma dose de cachaça barata. Enquanto me perguntava onde encontrar inspiração cotidiana para a crônica que me esperava percebo os dois homens extravagantemente vestidos que chegam. Nos braços de um deles um pequeno poodle cor-de-rosa se agitava. Balançava as orelhinhas, olhando nervosamente para todos os lados. Se acomodaram junto ao banheiro masculino, no fundo do bar. Três seres chamativos que compõem em torno à mesa a mais conhecida instituição contemporânea de família, o casal gay com seu pet. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome ou celebrar o aniversário de casamento com brindes e bater de copos.

Passo a observá-los. O careca de bigode loiro e camisa de paetês vermelhos consulta a carteira e chama o garçom discretamente, apontando para os copos e bebidas que ficam atrás do balcão. O de chapéu cowboy e vasto cavanhaque vermelho alisa a cabeça do cão, beijando-a de vez em quando. Olha ao redor, analisando a profusão de pessoas, levemente disperso. O garçom se afasta. O homem de chapéu, então, se espalha pelo sofá, esticando pernas e braços. Estava à vontade, comportava-se como dono fosse da espelunca. O cãozinho se aninhou junto a sua barriga. Junto ao balcão, vejo os dois pequenos copos onde o garçom despeja as doses. O licor de pêssego, a Amarula e a groselha se juntam formando um líquido de tom amarronzado.

O cãozinho recolhe migalhas esquecidas pelo pano imundo do garçom, que acabara de depositar os copinhos na mesa. Por que não bebem? Vejo que os três, o homem calvo, o cara de chapéu cowboy e o pet obedecem em torno à mesa um discreto ritual. O careca remexe na mochila Nike falsificada, retira alguma coisa. O outro se mune de uma caixa de fósforos, e aguarda. O poodle também espera, como uma criança ansiosa. Ninguém mais presta atenção à cena, apenas eu.

É verde o líquido que o bigodudo careca verte de uma garrafinha prateada para cada copo. De longe, acredito ser absinto. Enquanto os líquidos se misturam, o sujeito de chapéu risca um fósforo e se aproxima da bebida. O poodle se retrai, incomodado pela pequena chama. Assim que o fósforo se aproxima do tom verde que agora inunda os copos, uma pequena fogueira surge no interior de cada drinque. Como a um gesto ensaiado, os dois homens levantam os copinhos. Vão brindar. Agora, nada discretos, falam em tom alegre, olhos indo de um a outro, passando com ternura pelo pequeno cãozinho:
– Ao batismo de Bob!

Foi só uma uma fração de segundos, mas os olhos do sujeito careca se cruzam com os meus. Surpreendido pelo participante oculto do íntimo ritual, ele derruba o copo cheio de labaredas sobre a mesa, coberta por uma toalha de plástico encardida. Plásticos deveriam ser considerados bons condutores de calor. Eu deveria parar de freqüentar bares ordinários. Geralmente costumam não ter extintores de incêndio em dia. Bombeiros, como a polícia do Rio, também não funcionam como deveriam. Percebi que não teria problemas para resolver minha coluna semanal. Nem as próximas. Essa acabara de ser a última crônica.

Trecho em vermelho retirado do texto Dois Velhinhos, de Dalton Trevisan, disponível aqui. Já minha crônica foi inspirada na crônica A Última Crônica, de Fernando Sabino, que pode ser conferida aqui.

Foto de Lucas Braga.

Atrás do seu olhar

26 novembro, 2008


pedro1O bar fedia a fumaça, espessa e ocre. Ela se despediu da amiga ao telefone e subiu os últimos degraus, adentrando no ambiente colorido e parcamente iluminado. “The beauty a gray”, “The beauty a gray, hey now”, cantarolava o vocalista de uma banda desconhecida ao microfone martelando um refrão conhecido da Live, a melhor banda pós-Nirvana dos anos 90. A turma já havia escolhido uma mesa bem central, protegida de um spot de luz por uma parede que trazia um pôster antigo e descascado de Pearl Jeam. O ambiente lhe era familiar. Curtia aos extremos desses bares soturnos que escondiam a noite tendo como trilha de fundo os acordes do rock’n’roll, tanto faz se na forma de roupagens novas e levemente eletrônicas, ou o rock pesado e obscuro que ela imediatamente ligava à Inglaterra, aos pubs londrinos em que uma mulher podia beber uma caneca de cerveja sem parecer uma alcóolatra.

Ela olhou a fauna ao redor. Três meninas arrulhavam olhares sentadas em um sofazinho à direita. Uma turma de 20 e poucos anos acotevelava-se ao redor de uma minúscula mesa redonda. Dos dez ocupantes, dois disputavam uma demorada partida de xadrez em meio ao burburinho das vozes que aumentavam de volume toda vez que o vocalista da banda desconhecida empunhava novamente o microfone. No balcão perdido no meio da sala e iluminado por um dos poucos pontos de luz do escuro ambiente, dois rapazes, um ruivo de cabelos curtos e um moreno vestindo uma camiseta em que se lia em letras garrafais “I Love Black Sabbath”, dividiam uma cerveja. No canto do mesmo balcão, protegido pela escuridão proporcionada pela luz que não o alcançava, um sujeito de camisa verde claro e bigodinho perdido sobre a boca terminava uma dose de uísque, tendo ao colo um daqueles bizarros blazers pretos de couro que denunciam funcionários públicos, bancários e contabilistas.

Sentou-se em meio aos amigos. Já estavam na segunda rodada de cerveja. Bebiam em pequenos copos, desses que em padarias próximas à Avenida Paulista se serve café com leite. Pediu ao garçom um copo igual. Ele assentiu com a cabeça, e ela viu seus compridos cabelos encaracolados que caíam sobre a camisa xadrez desaparecer por trás do balcão. Em minutos o garçom depositou o copo à sua frente. Em minutos ela exterminou a cerveja gelada que seu amigo, diretor de arte recém-chegado de dois longínqüos e intermináveis anos na Irlanda, despejava em seu copo. O líquido gelado escorria pela sua garganta e deixava-a, aos poucos, levemente entorpecida. Olhou com olhos inquietos o relógio. Os números em vermelho do mostrador digital mostravam dez para as onze e nada dele aparecer. Ela tinha vindo essa noite porque sabia de sua presença na mesma mesa em que agora, entre indecisa e cada vez mais falante devido aos copos de cerveja gelada que não paravam de ser esvaziados, se perguntava se realmente seria interessante & correto & edificante & benéfico& saudável para sua paz de espírito se meter com ele.

Não teve tempo de refletir, pois ele já invadia a mesa com sua voz rouca. Trazia um tricot verde escuro no braço, e parecia ainda mais jovem metido na t-shirt branca encardida que usava. Cumprimentou a todos e o olhar intensamente verde que trazia durante poucos segundos aprofundou-se nela. E durante frações de segundo que o tilintar do coração definiria como interminável caso decidisse imitar e parar de bater, ela ficou sem ação. Não sabia se sustentava o olhar, encarando a altivez fingida dele com uma mentirosa arrogância de autoria dela. Não sabia se desviava o olhar e fingia concentrar todas suas atenções no casal de namorados que agora tomava a mesinha ao lado acompanhado de carícias explícitas. Não sabia se deveria saber alguma coisa. Cumprimentou-o fingindo leve descontração.

– Oi. Tudo bem?

– Olá, respondeu ele zombeteiramente. Então nos encontramos novamente.

Acentou o “novamente” com toque de ironia, como quem sabe que pega o outro numa mentira deslavada. Ela bebeu o resto da cerveja que já começava a esquentar. Sabia que de tanto bater seu coração havia parado, igualzinho ao título daquele filme romântico que ela sempre via na locadora e nunca levava. Em seguida, em mais um de seus interrogatórios íntimos e pessoais, em que ela encarnava a inquisidora-sado-masoquista, perguntou há quanto tempo os dois brincavam de gato e rato e o porquê dessas idas e vindas, de encontros e desencontros em que nada diziam e tudo queriam dizer. Não obteve resposta.

Só vislumbrou o motivo quando, depois de muitas cervejas, discussões acaloradas e roçar propositalmente descuidado de mãos, pernas e braços enxergou no fundo dos olhos dele a resposta, tão na cara quanto desses momentos em que se perdem os óculos e eles estão ali, às vistas, enterrados sobre a cabeça, e não há visão de raio-x que nos faça perceber. No fundo escuro da pupila dele, tão imerso quanto seres abissais que navegam profundezas oceânicas, ela percebeu que ali havia medo, um profundo, escuro e pegajoso medo quanto ao desconhecido e doce estrago que ela poderia fazer em sua vida.

Foi por isso, que quando a noite despachava seus personagens soturnos de volta pra casa, e ele perguntou como quem não quer nada, mas quer ouvir uma resposta que diga tudo, se ela tinha como ir embora, que ela respondeu, tenho, vou com Fernanda e Antônio. Porque ela já não era dessas mulheres que sim, dizia sim a uma carona já antevendo a despedida no portão seguida de um convite para curtir o cafezinho/a última dose/a saideira/um copo d’água logo ali, em casa. Porque era dessas mulheres que compreendem, seja num átimo de segundo, seja no vagar de uma consciência adquirida durante a noite, o mês, a vida inteira, que dois olhares que se desejam pela insensatez percebida no olhar um do outro, são um caminho sem volta em direção a mais extrema, irracional e interminável loucura.

Pelo telefone

26 fevereiro, 2008

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Oi. Não, não sei, mas acho que nada está bem ainda. Porque digo isso? Talvez por me encontrar à beira do abismo. Lá vem você com a história que faço dramas. Não faço isso, nem histórias. Há tempos extingui essa habilidade de minha lista de qualidades. Sei que tenho positividades, não há de ser você a me confirmar isso. Ok, ok, desculpe, estou lhe ofendendo novamente. Desculpa, eu sei. Virou hábito, que há de se fazer. Perdi o fio da meada. Perdi a chavezinha que desligava qualquer tentativa de lhe fazer mal. Eu te odeio? Não. Nunca. Não consigo sentir isso por ti. Olha, é preciso muito esforço pra isso. E por ti, não quero fazer mais nada que exija demasiada força, extenso comprometimento. Desisti de nós? Não, não. Nada disso. Que inverdade é essa? Ouviste eu dizendo isso? É, isso mesmo, que bom que concordas. Agora deixa eu te explicar, de forma miúda, para não haver erros de entendimento. Desisti, sim, de te amar incondicionalmente. Sim, é isso que ouviste. Só existia “nós” porque te amava de forma irracional. Porque te esperava como quem alcanças luas e sóis todos os dias. Porque te pensava como desses quadros que só quem compra lhe põe devido valor. Exatamente assim, escute: havia a impressão que só eu enxergava tuas qualidades, teu jeito de sorrir encabulado. Porque a mim parecia que precisava te revelar ao mundo, te pegar pela mão e cuidar de fazer existir teus desejos. Se ainda sinto isso? Acho que sim, mas de outra forma. Mas por enquanto ainda está adormecido, e há de ressonar algumas semanas. Tomou um vidro de Lexotan, Neozine, dessas porcarias mais antigas que se ingeria para esquecer verdades. Não, não é tua culpa, não digas isso. Não te culpes. Há serenidade em mim. Há certezas que não haviam antes. Desculpa, não sei se quero revelá-las. Tudo bem, eu sei que nos contávamos tudo. Mas nada de sobressaltos, sossegues, haveremos de fazer isso ainda sempre. Sim, isso mesmo, isso de beber cerveja enquanto se discute vãs filosofias, de dividir pertences, de emprestar sonhos um ao outro. A diferença é que dessa vez será de forma madura, sem esquecer do eu que deve ser carregado quando levo a ti. Não compreendes? Quando chegar a hora, hás de entender. Eu sei, tenho o hábito de falar por metáforas, uso formas complicadas, subjetivando, me esvaindo em camadas mais profundas. Não, não se trata de fuga. Talvez seja hábito de embelezar as verdades, fazer pilings orais, dessas habilidades que muitos chamam retórica, outros erudição, meia dúzia nomearia arrogância. Mas voltando da digressão, tenho certeza de que será consciente, nada irracional, que estou farta dos esqueletos escondidos no armário. Será diferente. Não sei como. Mas pressinto que chegará aos poucos, como esse anoitecer que se desdobra agora. Vês ele também? Aqui ele surge preguiçoso. Percebes o ritmo? Ok, sei que tens de desligar. Faça-o por mim. Estou à espera. Mas antes, escute: não se sinta obrigado. Não deves nada a mim. Talvez, sei lá, apenas a rosa que não colheste e não me entregaste toda vez que passava em frente à casa florida, com aquele cheiro de vida recém cortada invadindo minha manhã. Foi mais um surto digressivo? Não, não, talvez a constatação tardia, ou análise errônea, fruto da distância, de erros crassos, de saber o quanto de poesia poderia ter existido em nossa vida. Não, não digas que tenha sido tua culpa. Acho que mais minha, por intransigências, por medos, pelo andar em círculos, naquela metáfora eterna do cão buscando seu próprio rabo. Ok, sei, tens de ir. Deixe que eu fique aqui, escrevendo as respostas para mais uma de nossas conversas pontuadas de interrogações, descobertas, mistérios. Mas prometo, é minha última frase, só deixes que eu te lance uma última pergunta. Não, não quero que respondas agora, só tenho por isso que reflitas a respeito, revolva bem teus desejos íntimos, bagunce tuas certezas, esculhambe com os padrões oficiais e esperados: ainda queres continuar a escrever nossas conversas comigo?

Desamor

8 janeiro, 2008

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Ela intuiu sua chegada. E os minutos marcavam a eternidade em que ele se demorava ali. Resolveu assomar pela porta. Ao primeiro barulho, o olhar alerta dele irrompeu no pequeno espaço entre a grade, o corredor e a escada em caracol. O conhecido e esquecido frio ondulou na barriga e fez em pé a penugem do braço. “Ainda me sinto assim”, pensava, querendo assumir-se distraída, como se o calafrio fosse causado por simples passagem de ar gélido, daqueles que surgem sem se saber de onde. Quanta tolice.

Ela desceu a escada, entre vacilante, ansiosa e destemida. Imaginava-se desfilando, e o olhar dele descortinando cada pedaço seu que de em pouco em pouco se descobria. Um pé, mais outro pé coberto de sandália vermelha, agora um pedaço da barriga da perna, o restante em seguida, o joelho, a cintura fina, a barriga chata, os poucos seios teimosos que tentavam projetar-se pra frente, os ombros erguidos, quase pose de rainha.

Se encontraram frente a frente e para ela teimava em parecer a primeira vez. Havia um cavanhaque em seu queixo, quê de ousadia em plena terça de manhã. Ele nunca lhe parecera tão belo, e a sensação lhe fez tremer o lábio, o qual mordeu internamente para que se mantivesse firme. Buscou sua boca e ele ensaiou um beijo de apresentação, desses de quem recém se reconhece parceiro de negócios. Ela não estranhou, sorriu até, enquanto ele segurava sua mão. Trocaram meia dúzia de palavras, todas mal ditas, mal escolhidas, como se tivessem tanto a dizer e, ao mesmo tempo, muito a esconder. Ela se despediu, não sem antes dizer que ele tinha o rosto em vermelho. Seria sol, indagou. Sua boca negativou. A ela, agora, pareceu que o rubor escondia vergonha. Exato, havia vergonha e timidez em seus gestos, na respiração, na forma como o corpo balbuciava. Ela se despediu sem voltar-se para trás, sem sorrisos ou olhares de quem se conhece a eternidades.

De volta ao computador, seu cheiro irrompia, serpenteava, danosa serpente a oferecer o fruto do destempero. Destempero, sim, porque com custo devorava a impulsividade de voltar e navegar em seus odores, no cheiro oloroso que teimava em lhe provocar, enquanto os olhos percorriam as palavras no dicionário eletrônico atrás de sinônimos para desamor.

Os olhos buscavam – desacomodar, desacompanhar – e nos fones a letra martelava “That I’m so easy to please, so easy”. Ela espalhou a lágrima que principiava a escorrer, disfarçando o que se passava. Não seria taxada de insana, nem despertaria a curiosidade e a morbidez alheia no pouco tempo que trabalhava ali.

O choro foi engolido firmemente, enquanto buscava pensar em amenidades, o filme que assistiria no cinema alojado no pequeno shopping da cidade, a conta de luz que precisava resgatar da caixa de correspondência, os telefonemas pra hora na manicure e pra consultar o dentista gordo que sempre repetia a mesma cantilena a respeito de sua história povoada de tristezas & provações.

Desalojar, desalmado, desalterar. Os dedos prosseguiam na busca do significado que teimava em se revelar pelo ouvido e que talvez explicasse, na forma de gráficos, diagramas, mapas mentais, a angústia que transportava junto ao corpo aonde quer que fosse. “Tão fácil de agradar”, repetia a música. A descoberta fez rolar a lágrima que desejava brincar de esconde-esconde em seu olho. Havia acabado de achar o sinônimo para desamor.

Quando você iniciou em mim

12 dezembro, 2007

alma.gifalma.gifcoracao.jpgEla sabia tão pouco dele. Mas o pouco que existia já cabia na vontade de se apaixonar.

Eles se conheceram numa festa. Daquelas à la Renato Russo, estranha, cheia de gente esquisita. E quando ela recém iniciava uma ida em busca de birita ele a interpelou no bar. Pediu nome, se apresentou, do jeito que pede o riscado. Pediu para aguardar, já que logo se desfaria da portaria.

Ela esperou. E com a espera vieram os sobressaltos, as dúvidas de assalto. Pensava: “O que quer ele de mim?” Nada. Não haviam respostas, nem mesmo nas jogadas de búzios.

Ela resolveu esperar. Apostou todas as fichas. Como dizia aquela música do Tequila Baby, “não venha de carta marcada”. Ela não veio. Não marcou carta, não consultou orixás, não negociou com numerologia. Simplesmente ficou ali, à mercê, como quem espera a sela certa para montar. Mas não havia príncipes cavalgando cavalos brancos.

Só havia ele, que retorna.

Iniciam uma conversa cheia de segundas intenções. Ela fala de ex-amores, quem sabe para despistá-lo. Ele resolve utilizar a artimanha do egoísmo, oferecendo-se para uma noitada em que o prato principal seria ele, em uma bandeja.

Ela titubeia. Teme arriscar. Essas noitadas de sexo selvagem e alguns segredos trocados não dão em boa coisa. Geralmente terminam com a donzela cheia de sorrisos por um “quero mais” e o cavaleiro à distância, ocupado em desbravar novas pradarias.

Ela pensou duas, três, quarenta vezes. O sorriso em sua frente dificultava qualquer resposta. O branco de seus dentes a fazia voltar atrás em seus princípios, em seus valores, em tudo que lhe existia de mais caro. Ela já havia prometido a si mesma: “Nunca mais noitadas cheias de arroubo”. Roubavam seu coração, quando o mais certo era apenas entregar seu corpo. Que pilhassem suas carnes, seu gozo, e a deixassem inteira com suas histórias, suas significâncias.

Ele insiste. Seu cheiro de sálvia e sândalo a interpela diversas vezes. Entra por todos os buracos de sua cabeça, como diria Fernanda Abreu. Sua presença morena, além de negra em função de vestimentas, de pêlos que tocam seu braço e a arrepiam de maneira jamais sentida, não fazem mais sentir dona de si. Ele já é o onipresente senhorio dela.

Conduzida por aromas, temas e teoremas, ela se deixa levar. Mergulha em meios a sussurros desconexos, frases sussurradas e toda uma parafernália de roubos e arroubos que uma noitada com um desconhecido pode proporcionar.

Ao findar a noite, ela bebe sedenta o seu nome. Explora recantos secretos, cheiros escondidos.Enxerga-se no olhar meio ternura, meio Inquisição dele. Sua viagem não termina no êxtase, nem nas frases proferidas em meio a sentimentos avassaladores, que a fazem sentir-se mais mulher que menina. Ele já não é mais um desconhecido. Cada recôndito do corpo dele encerra uma promessa de retorno, uma despedida que acena brevemente, certo da presença que há de regressar.

Ela beija seus olhos, suas pupilas sedentas de mais prazer. Ela repousa os lábios em sua axila, em seu cheiro que é árvore tombada no meio da estrada. Seus dedos escorregam entre pêlos e pensamentos. E nesse momento percebe que já o conhecia do início do mundo, do tempo em que os homens, bestas em quatro patas, farejavam o amor como quem intui o prenúncio de uma nova era.

O I Ching leu o meu destino

30 outubro, 2007

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Ela apostou no I Ching. Esses jogos de adivinhação e misticismo oriental, além de traduzirem mais charme, pareciam estar acima da vã intelectualidade euro-americana de tudo explicar e traduzir. Haviam coisas que permaneceriam acobertadas, soterradas por quilos e quilos do que o bom senso e o estilo clean, tão característicos do way of life ocidental limpo de borrões e equívocos, não conseguiam descobrir. Parecia sempre haver um mistério, negro e insondável, por trás das cantilenas místicas advindas do Oriente. Era isso que a atraía, essa adivinhação que se mostrava irresoluta, como que escrita pelo chumbo dos milênios. Ela revirou as cartas, da forma que exigia o figurino do I Ching em estilo fast food, até ele contaminado pela instantânea e insípida forma ocidental de desenrolar a vida. Deu de ombros. Seus pudores e radicalismos não a impediriam de alcançar as respostas que buscava só porque os meios não eram os ideais. Os fins justificavam trocar o método original, jogado com desgastadas moedas de prata, pela coleção de pequenos papéis que agora resultavam espalhados a sua volta.

Entre salamaleques e revorteios, a pergunta martelava na cabeça: ele me ama? Ele me quer? Ele me espera? Ali, em meio ao torvelinho que era a mistura de cartas vermelhas manchadas de desenhos orientais em amarelo, ela pouco intuía o que o mundo, síncrono e esperto, do tipo velha raposa que ri por trás de olhos semicerrados de prazer leitoso, lhe preparava. Dentre todas as cartas, a escolhida a esmo lhe era destinada. Buscou-a entre pares e pares de suas iguais, todas em um papelão velho, que aos poucos, se enrugava nos cantos. A pergunta não lhe abandonava os instintos. Ele me deseja? Me busca para sempre, curva e envelhecida, a preparar ervas para esmorecer a dor e o desassossego de rins, fígado e medula? A pergunta ainda martelava obstinada em sua mente quando escolheu uma que, à primeira vista de quem busca, se sobressaía.

Virou-a rapidamente, contrariando seus valores em favor de uma rotina desacelerada. Hsien, dizia a carta. Hsien, a atração. Nesse instante, seu coração se torceu em síncope. Porque não o amor, a sabedoria, a prudência? Porque a atração, valor tão mundano e imundo, carregado de traduções pejorativas? A pulsação desacelerou quando seguiu na leitura dos significados que o pequeno pedaço de papelão lhe trazia. A figura trazia um homem e uma mulher. Era uma situação de galanteio. Não poderia haver imagem mais explícita. No entanto, as palavras subvertiam a figura. A mensagem, clara e límpida, combinada à ilustração em estilo oriental, cheio de árvores derramadas e casas com telhados pontiagudos que se estendiam pelas horizontais, falava em se submeter à paciência. Aludia a uma existência, sim, perene e exitosa, se soubesse impor suas vontades de forma refinada, nas entrelinhas de quem conquista como se soubesse que tudo está lá, escrito nas estrelas, e jamais pudesse receber uma rápida pincelada de errorex.

Respirou fundo, um sorriso produzido pelo sentimento inebriador da esperança. Amanhã seria outro dia a perguntar-se, de forma inquisidora, se ele o desejava e em qual freqüência e circunstância e intensidade. Hsien, no entanto, lhe ensinara que não mais existiam perguntas quando a persistência e a paciência, gêmeas da mesma inicial, lhe fizessem companhia. Ela esperaria como que tem os séculos à disposição. Ela agarraria a velocidade da rotina e a domaria, como quem intui, ao modo sereno dos velhos monges budistas, que o destino é uma questão de tempo e equilibrada vigília.

Café Espanhol

22 outubro, 2007

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Decido pelo café espanhol, transbordante de leite condensado e sento à mesinha pequena, um tanto afastada dos demais freqüentadores. A atendente logo traz a xícara fumegante, com o cheiro inconfundível da bebida escura misturada à viscosidade do leite adocicado. Enquanto beberico o primeiro gole quente, minha visão desvia-se para o casal sentado em frente à minha mesa.

Ele tem seus quarenta e tantos anos e seus movimentos são facilitados por um abrigo de tactel ordinário em diversos tons e sobretons de azul, daqueles vendidos em lojas cujos funcionários apregoam descontos e ofertas imperdíveis em plena calçada. Os cabelos grisalhos, pela altura do queixo, escondiam um rosto magro e insípido, cuja boca nervosamente digladiava com a mulher à sua frente. Sorvo meu café, que está um tanto mais frio. Olho de soslaio, como quem não quer nada, novamente à espreita.

Disfarçadamente analiso a mulher: toda de preto, veste uma saia com uma fenda que se estende até à metade da perna. Somente seus sapatos, caramelos, destoam da vestimenta escura e triste. Ela segura a xícara com as duas mãos, como uma criança segurando um frágil bibelô de louça, valioso demais para as mãos infantis. Seus olhos mal pousam nos olhos do homem à sua frente. Sua boca, emudecida, é um fino risco rubro que nada retruca. Somente cala e consente às palavras rispidamente desferidas pelo outro.

Desvio o olhar, que teima em procurar a intimidade alheia. Olho nervosamente para a mesa ao lado, onde um grupo de sessentões alegremente diverge sobre política, políticos e eleições. Procuro não demonstrar pressa para trazer o casal ao meu campo de visão novamente. Quando isso acontece, me deparo com a mesa semivazia. O homem se fora e não presenciei sua saída antecipada. Teria sido abrupta? Ele teria se despedido dela? O olhar perdido e ausente da mulher me diz que não. Parecia explicar a si mesma o que acontecera. Seus olhos vagavam em um espaço sem explicações ou conforto.

Beberico meu café novamente. O leite condensado já se unira ao café, e juntos formavam um líquido marrom-claro, adocicado, que me fazia lembrar a infância e seus cheiros inimitáveis. Pouso a xícara no pires e meu olhar encontra a mesinha em frente totalmente vazia. A mulher também se fora. Não a vira sair. Teria levantado atropeladamente? Ou seu levantar teria sido digno e clássico, sem demonstrar as mínimas nuances que denunciam o buscar de quem se ama? Na mesa, o café pela metade, um croissant mordiscado levemente. Como alguém que sai às pressas e não tem tempo de recolher a vida e carregá-la consigo.

Termino o café, saboreando lentamente o gosto adocicado que preenche todas as cavidades de minha boca. Levanto, pego bolsa, sacolas e deixo a cafeteria. Lá fora, o sol se põe em tímidas nuances avermelhadas e é acompanhado de uma brisa fria, mas inexoravelmente confortante. Ando sem pressa, a refletir que certos amores são como o café espanhol experimentado a pouco: uma mistura de substâncias em que o suave é deliciosamente tragado pelo consistência do marcante ou – resultado de escolhas irrefletidas – uma união de sabores em que o adocicado e mais fraco declina eterna e ilimitadamente em favor do mais forte.