Café da manhã

10 abril, 2009

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paquenteftrc2Meus sonhos

São manteiga que funde

Derretida

No pão quente

Da tua loucura

Foto: Stella Dauer

Pequeno momento em dúvida

16 março, 2009

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Por que me fazes falta

Se cheguei ao mundo

Sem tua presença?

Foto: Walala Pancho

Atrás do seu olhar

26 novembro, 2008


pedro1O bar fedia a fumaça, espessa e ocre. Ela se despediu da amiga ao telefone e subiu os últimos degraus, adentrando no ambiente colorido e parcamente iluminado. “The beauty a gray”, “The beauty a gray, hey now”, cantarolava o vocalista de uma banda desconhecida ao microfone martelando um refrão conhecido da Live, a melhor banda pós-Nirvana dos anos 90. A turma já havia escolhido uma mesa bem central, protegida de um spot de luz por uma parede que trazia um pôster antigo e descascado de Pearl Jeam. O ambiente lhe era familiar. Curtia aos extremos desses bares soturnos que escondiam a noite tendo como trilha de fundo os acordes do rock’n’roll, tanto faz se na forma de roupagens novas e levemente eletrônicas, ou o rock pesado e obscuro que ela imediatamente ligava à Inglaterra, aos pubs londrinos em que uma mulher podia beber uma caneca de cerveja sem parecer uma alcóolatra.

Ela olhou a fauna ao redor. Três meninas arrulhavam olhares sentadas em um sofazinho à direita. Uma turma de 20 e poucos anos acotevelava-se ao redor de uma minúscula mesa redonda. Dos dez ocupantes, dois disputavam uma demorada partida de xadrez em meio ao burburinho das vozes que aumentavam de volume toda vez que o vocalista da banda desconhecida empunhava novamente o microfone. No balcão perdido no meio da sala e iluminado por um dos poucos pontos de luz do escuro ambiente, dois rapazes, um ruivo de cabelos curtos e um moreno vestindo uma camiseta em que se lia em letras garrafais “I Love Black Sabbath”, dividiam uma cerveja. No canto do mesmo balcão, protegido pela escuridão proporcionada pela luz que não o alcançava, um sujeito de camisa verde claro e bigodinho perdido sobre a boca terminava uma dose de uísque, tendo ao colo um daqueles bizarros blazers pretos de couro que denunciam funcionários públicos, bancários e contabilistas.

Sentou-se em meio aos amigos. Já estavam na segunda rodada de cerveja. Bebiam em pequenos copos, desses que em padarias próximas à Avenida Paulista se serve café com leite. Pediu ao garçom um copo igual. Ele assentiu com a cabeça, e ela viu seus compridos cabelos encaracolados que caíam sobre a camisa xadrez desaparecer por trás do balcão. Em minutos o garçom depositou o copo à sua frente. Em minutos ela exterminou a cerveja gelada que seu amigo, diretor de arte recém-chegado de dois longínqüos e intermináveis anos na Irlanda, despejava em seu copo. O líquido gelado escorria pela sua garganta e deixava-a, aos poucos, levemente entorpecida. Olhou com olhos inquietos o relógio. Os números em vermelho do mostrador digital mostravam dez para as onze e nada dele aparecer. Ela tinha vindo essa noite porque sabia de sua presença na mesma mesa em que agora, entre indecisa e cada vez mais falante devido aos copos de cerveja gelada que não paravam de ser esvaziados, se perguntava se realmente seria interessante & correto & edificante & benéfico& saudável para sua paz de espírito se meter com ele.

Não teve tempo de refletir, pois ele já invadia a mesa com sua voz rouca. Trazia um tricot verde escuro no braço, e parecia ainda mais jovem metido na t-shirt branca encardida que usava. Cumprimentou a todos e o olhar intensamente verde que trazia durante poucos segundos aprofundou-se nela. E durante frações de segundo que o tilintar do coração definiria como interminável caso decidisse imitar e parar de bater, ela ficou sem ação. Não sabia se sustentava o olhar, encarando a altivez fingida dele com uma mentirosa arrogância de autoria dela. Não sabia se desviava o olhar e fingia concentrar todas suas atenções no casal de namorados que agora tomava a mesinha ao lado acompanhado de carícias explícitas. Não sabia se deveria saber alguma coisa. Cumprimentou-o fingindo leve descontração.

– Oi. Tudo bem?

– Olá, respondeu ele zombeteiramente. Então nos encontramos novamente.

Acentou o “novamente” com toque de ironia, como quem sabe que pega o outro numa mentira deslavada. Ela bebeu o resto da cerveja que já começava a esquentar. Sabia que de tanto bater seu coração havia parado, igualzinho ao título daquele filme romântico que ela sempre via na locadora e nunca levava. Em seguida, em mais um de seus interrogatórios íntimos e pessoais, em que ela encarnava a inquisidora-sado-masoquista, perguntou há quanto tempo os dois brincavam de gato e rato e o porquê dessas idas e vindas, de encontros e desencontros em que nada diziam e tudo queriam dizer. Não obteve resposta.

Só vislumbrou o motivo quando, depois de muitas cervejas, discussões acaloradas e roçar propositalmente descuidado de mãos, pernas e braços enxergou no fundo dos olhos dele a resposta, tão na cara quanto desses momentos em que se perdem os óculos e eles estão ali, às vistas, enterrados sobre a cabeça, e não há visão de raio-x que nos faça perceber. No fundo escuro da pupila dele, tão imerso quanto seres abissais que navegam profundezas oceânicas, ela percebeu que ali havia medo, um profundo, escuro e pegajoso medo quanto ao desconhecido e doce estrago que ela poderia fazer em sua vida.

Foi por isso, que quando a noite despachava seus personagens soturnos de volta pra casa, e ele perguntou como quem não quer nada, mas quer ouvir uma resposta que diga tudo, se ela tinha como ir embora, que ela respondeu, tenho, vou com Fernanda e Antônio. Porque ela já não era dessas mulheres que sim, dizia sim a uma carona já antevendo a despedida no portão seguida de um convite para curtir o cafezinho/a última dose/a saideira/um copo d’água logo ali, em casa. Porque era dessas mulheres que compreendem, seja num átimo de segundo, seja no vagar de uma consciência adquirida durante a noite, o mês, a vida inteira, que dois olhares que se desejam pela insensatez percebida no olhar um do outro, são um caminho sem volta em direção a mais extrema, irracional e interminável loucura.

Mouth

26 setembro, 2008

Foto: Mazarin

Põe tua boca

Pra brincar comigo

Deixa ela solta

Pra me fazer cócegas na alma

Põe tua boca livre

Molhada com teu eu

A me fazer promessas inventadas

Dessas que se acredita desacreditando

Traz tua boca aqui

Ela pede diversão com minha língua

Quer apostar corrida, esconde-esconde

Lutar com sabres imaginários de luz

Brinca tua boca

Fazendo firulas em meu pescoço

Contando histórias inventadas às pressas

Cuidadosamente detalhadas

Pra me fazer rir

Deixa tua boca comigo

Quero bebê-la de vez em quando sempre

Molhar minha vida em tua saliva

Ter companhia para me descobrir

Amor estragado

5 agosto, 2008

Hoje encontrei teu cheiro

Numa t-shirt amarela

Perdida em meu armário

Tinha o odor embolorado

Ocre musguento e fétido

De amor esquecido há tempos

Na geladeira

Foto: Ben’s Foto

Em ruínas

3 junho, 2008

Escada Escura, de Ademir Patricio

Eu não queria trocar de casa

Desta casca que ajudaste a crescer ao meu redor

Não abandono apenas portas e janelas

Ou memórias em vidro temperado do banheiro

Ficarão esquecidos nossos cheiros

Risadas

Sussurros gritados na madrugada

Sobrarão tombados

Cumplicidades com as paredes

Som de nossos cheiros nos degraus da escada

O gosto amarfanhado do teu acordar

Todos os cafés da manhã que nunca preparamos juntos

Pastel de queijo fechado a duas línguas

Luas de conversas com o sofá

Não saio apenas de uma casa

Soterro com decidido destempero

Um novo início de vida

Pelo telefone

26 fevereiro, 2008

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Oi. Não, não sei, mas acho que nada está bem ainda. Porque digo isso? Talvez por me encontrar à beira do abismo. Lá vem você com a história que faço dramas. Não faço isso, nem histórias. Há tempos extingui essa habilidade de minha lista de qualidades. Sei que tenho positividades, não há de ser você a me confirmar isso. Ok, ok, desculpe, estou lhe ofendendo novamente. Desculpa, eu sei. Virou hábito, que há de se fazer. Perdi o fio da meada. Perdi a chavezinha que desligava qualquer tentativa de lhe fazer mal. Eu te odeio? Não. Nunca. Não consigo sentir isso por ti. Olha, é preciso muito esforço pra isso. E por ti, não quero fazer mais nada que exija demasiada força, extenso comprometimento. Desisti de nós? Não, não. Nada disso. Que inverdade é essa? Ouviste eu dizendo isso? É, isso mesmo, que bom que concordas. Agora deixa eu te explicar, de forma miúda, para não haver erros de entendimento. Desisti, sim, de te amar incondicionalmente. Sim, é isso que ouviste. Só existia “nós” porque te amava de forma irracional. Porque te esperava como quem alcanças luas e sóis todos os dias. Porque te pensava como desses quadros que só quem compra lhe põe devido valor. Exatamente assim, escute: havia a impressão que só eu enxergava tuas qualidades, teu jeito de sorrir encabulado. Porque a mim parecia que precisava te revelar ao mundo, te pegar pela mão e cuidar de fazer existir teus desejos. Se ainda sinto isso? Acho que sim, mas de outra forma. Mas por enquanto ainda está adormecido, e há de ressonar algumas semanas. Tomou um vidro de Lexotan, Neozine, dessas porcarias mais antigas que se ingeria para esquecer verdades. Não, não é tua culpa, não digas isso. Não te culpes. Há serenidade em mim. Há certezas que não haviam antes. Desculpa, não sei se quero revelá-las. Tudo bem, eu sei que nos contávamos tudo. Mas nada de sobressaltos, sossegues, haveremos de fazer isso ainda sempre. Sim, isso mesmo, isso de beber cerveja enquanto se discute vãs filosofias, de dividir pertences, de emprestar sonhos um ao outro. A diferença é que dessa vez será de forma madura, sem esquecer do eu que deve ser carregado quando levo a ti. Não compreendes? Quando chegar a hora, hás de entender. Eu sei, tenho o hábito de falar por metáforas, uso formas complicadas, subjetivando, me esvaindo em camadas mais profundas. Não, não se trata de fuga. Talvez seja hábito de embelezar as verdades, fazer pilings orais, dessas habilidades que muitos chamam retórica, outros erudição, meia dúzia nomearia arrogância. Mas voltando da digressão, tenho certeza de que será consciente, nada irracional, que estou farta dos esqueletos escondidos no armário. Será diferente. Não sei como. Mas pressinto que chegará aos poucos, como esse anoitecer que se desdobra agora. Vês ele também? Aqui ele surge preguiçoso. Percebes o ritmo? Ok, sei que tens de desligar. Faça-o por mim. Estou à espera. Mas antes, escute: não se sinta obrigado. Não deves nada a mim. Talvez, sei lá, apenas a rosa que não colheste e não me entregaste toda vez que passava em frente à casa florida, com aquele cheiro de vida recém cortada invadindo minha manhã. Foi mais um surto digressivo? Não, não, talvez a constatação tardia, ou análise errônea, fruto da distância, de erros crassos, de saber o quanto de poesia poderia ter existido em nossa vida. Não, não digas que tenha sido tua culpa. Acho que mais minha, por intransigências, por medos, pelo andar em círculos, naquela metáfora eterna do cão buscando seu próprio rabo. Ok, sei, tens de ir. Deixe que eu fique aqui, escrevendo as respostas para mais uma de nossas conversas pontuadas de interrogações, descobertas, mistérios. Mas prometo, é minha última frase, só deixes que eu te lance uma última pergunta. Não, não quero que respondas agora, só tenho por isso que reflitas a respeito, revolva bem teus desejos íntimos, bagunce tuas certezas, esculhambe com os padrões oficiais e esperados: ainda queres continuar a escrever nossas conversas comigo?

Eu te amo

22 janeiro, 2008

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Eu te amo e a frase ecoa segundos afora

Eu te amo e tudo se solucionará

Eu te amo e faço dessas minhas últimas palavras

Eu te amo e teu cheiro brinca em minhas mãos

Eu te amo e quero que tudo mais vá para o inferno

Eu te amo e as sílabas sibilam, revoltam-se, rebolam em minha língua

Eu te amo e sinto todos os pesares, as culpas, as faltas que cometi

Eu te amo e teu corpo é café da manhã que devoro sem pressa

Eu te amo e acendem-se as luzes do cinema barato que freqüento às terças

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“Nada é impossível mudar
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertolt Brecht

Brecht se referia à política, à sociedade, mas acredito que o não perceber e compreender o outro, aquele ser com que se trafega em dupla pelas vias do amor, do enamoramento, da paixão, também jamais possa ser considerado natural.

Desamor

8 janeiro, 2008

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Ela intuiu sua chegada. E os minutos marcavam a eternidade em que ele se demorava ali. Resolveu assomar pela porta. Ao primeiro barulho, o olhar alerta dele irrompeu no pequeno espaço entre a grade, o corredor e a escada em caracol. O conhecido e esquecido frio ondulou na barriga e fez em pé a penugem do braço. “Ainda me sinto assim”, pensava, querendo assumir-se distraída, como se o calafrio fosse causado por simples passagem de ar gélido, daqueles que surgem sem se saber de onde. Quanta tolice.

Ela desceu a escada, entre vacilante, ansiosa e destemida. Imaginava-se desfilando, e o olhar dele descortinando cada pedaço seu que de em pouco em pouco se descobria. Um pé, mais outro pé coberto de sandália vermelha, agora um pedaço da barriga da perna, o restante em seguida, o joelho, a cintura fina, a barriga chata, os poucos seios teimosos que tentavam projetar-se pra frente, os ombros erguidos, quase pose de rainha.

Se encontraram frente a frente e para ela teimava em parecer a primeira vez. Havia um cavanhaque em seu queixo, quê de ousadia em plena terça de manhã. Ele nunca lhe parecera tão belo, e a sensação lhe fez tremer o lábio, o qual mordeu internamente para que se mantivesse firme. Buscou sua boca e ele ensaiou um beijo de apresentação, desses de quem recém se reconhece parceiro de negócios. Ela não estranhou, sorriu até, enquanto ele segurava sua mão. Trocaram meia dúzia de palavras, todas mal ditas, mal escolhidas, como se tivessem tanto a dizer e, ao mesmo tempo, muito a esconder. Ela se despediu, não sem antes dizer que ele tinha o rosto em vermelho. Seria sol, indagou. Sua boca negativou. A ela, agora, pareceu que o rubor escondia vergonha. Exato, havia vergonha e timidez em seus gestos, na respiração, na forma como o corpo balbuciava. Ela se despediu sem voltar-se para trás, sem sorrisos ou olhares de quem se conhece a eternidades.

De volta ao computador, seu cheiro irrompia, serpenteava, danosa serpente a oferecer o fruto do destempero. Destempero, sim, porque com custo devorava a impulsividade de voltar e navegar em seus odores, no cheiro oloroso que teimava em lhe provocar, enquanto os olhos percorriam as palavras no dicionário eletrônico atrás de sinônimos para desamor.

Os olhos buscavam – desacomodar, desacompanhar – e nos fones a letra martelava “That I’m so easy to please, so easy”. Ela espalhou a lágrima que principiava a escorrer, disfarçando o que se passava. Não seria taxada de insana, nem despertaria a curiosidade e a morbidez alheia no pouco tempo que trabalhava ali.

O choro foi engolido firmemente, enquanto buscava pensar em amenidades, o filme que assistiria no cinema alojado no pequeno shopping da cidade, a conta de luz que precisava resgatar da caixa de correspondência, os telefonemas pra hora na manicure e pra consultar o dentista gordo que sempre repetia a mesma cantilena a respeito de sua história povoada de tristezas & provações.

Desalojar, desalmado, desalterar. Os dedos prosseguiam na busca do significado que teimava em se revelar pelo ouvido e que talvez explicasse, na forma de gráficos, diagramas, mapas mentais, a angústia que transportava junto ao corpo aonde quer que fosse. “Tão fácil de agradar”, repetia a música. A descoberta fez rolar a lágrima que desejava brincar de esconde-esconde em seu olho. Havia acabado de achar o sinônimo para desamor.