A última crônica

5 junho, 2009

A caminho de casa, decido tomar uma branquinha naquele boteco de Copacabana que recendia a velhos tempos, pululante do baixo clero de prostitutas, cafetões, traficantes e outros seres undergrounds que, como eu, trabalhavam nas imediações. Tinha ainda uma tarefa inglória pela frente, e adiava ao máximo o momento de iniciar. A crônica que escrevia semanalmente para um jornal mediano há muito havia deixado de ser a reafirmação para um futuro glorioso nas artes literárias. No início a euforia era crescente, e cada parágrafo escrito se tornava um atestado da minha capacidade de extrair o melhor da língua portuguesa. Eu seria um escritor famoso, e minhas rimas, expressões, frases que exprimiam todo o arsenal de sentimentos da alma humana seriam lembrados postumamente como um marco da literatura contemporânea. Quanta tolice. Agora me pesava a obrigação de escrever uma coluna que muitas vezes era suprimida em prol de uma cobertura mais extensa do último acidente aéreo ou do jogo que apontava o vencedor do campeonato carioca e que, quando muito, rendia três comentários na caixa de e-mails do editor do jornal. Sem falar que muitas vezes me via obrigado a escrever roteiros infomerciais para garantir meu ganha-pão.

Em casa o cenário de desesperança se repetia. No subir da noite sempre me esperavam dois tios velhos, bastante doentes, um deles ainda paralítico. Exigiam cuidados, atenção, alimentação especial. Integravam a herança de grego que eu havia recebido do meu pai. Ficavam os dois prostrados o dia inteiro em casa, esperando a vida decidir seu fim por eles. O que ainda caminhava passava o dia à janela, espionando a rotina que corria lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Uma moça bonita discute com o namorado. Um policial cobra propina de um comerciante da rua.

Ficavam nisso o dia inteiro, o tio que andava provocando inveja no outro, que muitas vezes fervia de ira e gritava impropérios. Então brigavam, se xingavam desenterravam episódios antigos de família. A vingança do mais velho era ficar dias sem ir à janela ou contemplá-la guardando o que via só pra si, soltando risinhos abafados ou comentando tudo em tom baixo, quase inaudível, de forma a provocar ainda mais o irmão.

Eu ruminava todo esse fracasso bebendo uma dose de cachaça barata. Enquanto me perguntava onde encontrar inspiração cotidiana para a crônica que me esperava percebo os dois homens extravagantemente vestidos que chegam. Nos braços de um deles um pequeno poodle cor-de-rosa se agitava. Balançava as orelhinhas, olhando nervosamente para todos os lados. Se acomodaram junto ao banheiro masculino, no fundo do bar. Três seres chamativos que compõem em torno à mesa a mais conhecida instituição contemporânea de família, o casal gay com seu pet. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome ou celebrar o aniversário de casamento com brindes e bater de copos.

Passo a observá-los. O careca de bigode loiro e camisa de paetês vermelhos consulta a carteira e chama o garçom discretamente, apontando para os copos e bebidas que ficam atrás do balcão. O de chapéu cowboy e vasto cavanhaque vermelho alisa a cabeça do cão, beijando-a de vez em quando. Olha ao redor, analisando a profusão de pessoas, levemente disperso. O garçom se afasta. O homem de chapéu, então, se espalha pelo sofá, esticando pernas e braços. Estava à vontade, comportava-se como dono fosse da espelunca. O cãozinho se aninhou junto a sua barriga. Junto ao balcão, vejo os dois pequenos copos onde o garçom despeja as doses. O licor de pêssego, a Amarula e a groselha se juntam formando um líquido de tom amarronzado.

O cãozinho recolhe migalhas esquecidas pelo pano imundo do garçom, que acabara de depositar os copinhos na mesa. Por que não bebem? Vejo que os três, o homem calvo, o cara de chapéu cowboy e o pet obedecem em torno à mesa um discreto ritual. O careca remexe na mochila Nike falsificada, retira alguma coisa. O outro se mune de uma caixa de fósforos, e aguarda. O poodle também espera, como uma criança ansiosa. Ninguém mais presta atenção à cena, apenas eu.

É verde o líquido que o bigodudo careca verte de uma garrafinha prateada para cada copo. De longe, acredito ser absinto. Enquanto os líquidos se misturam, o sujeito de chapéu risca um fósforo e se aproxima da bebida. O poodle se retrai, incomodado pela pequena chama. Assim que o fósforo se aproxima do tom verde que agora inunda os copos, uma pequena fogueira surge no interior de cada drinque. Como a um gesto ensaiado, os dois homens levantam os copinhos. Vão brindar. Agora, nada discretos, falam em tom alegre, olhos indo de um a outro, passando com ternura pelo pequeno cãozinho:
– Ao batismo de Bob!

Foi só uma uma fração de segundos, mas os olhos do sujeito careca se cruzam com os meus. Surpreendido pelo participante oculto do íntimo ritual, ele derruba o copo cheio de labaredas sobre a mesa, coberta por uma toalha de plástico encardida. Plásticos deveriam ser considerados bons condutores de calor. Eu deveria parar de freqüentar bares ordinários. Geralmente costumam não ter extintores de incêndio em dia. Bombeiros, como a polícia do Rio, também não funcionam como deveriam. Percebi que não teria problemas para resolver minha coluna semanal. Nem as próximas. Essa acabara de ser a última crônica.

Trecho em vermelho retirado do texto Dois Velhinhos, de Dalton Trevisan, disponível aqui. Já minha crônica foi inspirada na crônica A Última Crônica, de Fernando Sabino, que pode ser conferida aqui.

Foto de Lucas Braga.