Machista

16 novembro, 2010

Tá, então vamos logo começar a história que tá todo mundo cansado e precisa dormir.  É, a mamãe precisa trabalhar cedo, você tem escolinha. Agora deixa eu pensar, hummm… Bom, tem aquela da fada que não sabia que a varinha de condão tava com defeito e transformou o príncipe num… Ah, essa eu já contei? Pôxa, que chato, Guto. Ai, ai, a memória da mãe tá parecendo o carro do vô Nereu, falhando toda hora. Deixa eu ver uma história que ainda não contei…. Ah, já sei. Essa era da minha infância. Cê não sabe o que é infância? É quando a mamãe tinha o mesmo tamanhito que você. É, sério, já fui dessa alturinha aí. A vovó Ana sempre dizia que a mamãe parecia botão de punho de camisa, bem pequeninho. Ok, vou parar de enrolar, vamos lá. Era uma vez… Não, Gustavo, a história tem “era uma vez”, mas é uma história diferente. Eu sei, mas é que toda história tem que ter um era uma vez no início. Não, ninguém vai pra prisão se não tiver era uma vez, tá bom? Fica sossegado. Agora pergunto: cê quer ouvir a história ou não quer? Tá, então retomando. Era uma vez uma princesa… Mas porque não dá pra ser princesa? Porque você é menino? Quem falou isso pra você? Ai, esse seu pai enfiando essa idéia machista na sua cabeça… Machista? Ah, machista é…Machista é um homem muito horrível que…Não, nada, vamos lá, eu vou contar a história do rei. Não, não vou contar a história do machista, Gustavo. Porque não. Isso, a história do machista o papai vai contar amanhã à noite para você. Agora presta atenção, vai começar a história do rei. Não, não sei se ele vai morrer no final. Por quê? Você quer que ele morra? Gustavo, a mamãe tá inventando a historinha na cabeça dela, por isso que o final não tá pronto ainda. Posso contar agora? Bom, vamos lá. No Reino das Cebolinhas vivia um rei… Quê? Amor, nem toda história precisa começar com era uma vez.  Tá, eu sei que eu falei que toda história tinha que iniciar com era uma vez, mas agora tô desfalando, certo? Ai, Gustavo, tá bom, já que você quer, eu uso era uma vez. Bom, começando: era uma vez um rei. O nome dele era Manoel Ernesto e o seu reino se chamava Reino das Cebolinhas. Tinha esse nome porque o reino IN-TEI-RO cheirava a cebola. Ãh? Sim, cebola é aquela coisa gosmenta que você não gosta de comer no molho. Mas é bom pra crescer e ficar forte, Guto, tem que comer. Bom, continuando. De manhã, o cheiro das cebolinhas era muuuito suave, mal dava pra sentir. Sabe blusa depois de lavar que continua tendo um rabinho de cheiro da mamãe e você adora abraçar pra dormir? Pois é, era assim. É que nesse momento as cebolinhas ainda estavam lá quietinhas, ressonando suavemente, sonhando com os banquetes do rei, aqueles jantares imensos em que elas sempre eram a atração principal. Você também queria participar de um banquete? Eu também, amor, mas agora presta atenção que vou continuar, já passou meia hora, você nem pregou o olho ainda. Ai, Jesus, esse guri não dorme nunca. Não, nada, Guto, tô falando que as cebolinhas adoravam dormir, agora presta atenção. Bom, quando chegava a hora do almoço, o cheiro de cebolinha no reino ficava cada vez mais intenso. Não desgrudava do nariz. Intenso? É forte. O cheiro ficava cada vez mais forte, entendeu? Forte feito o bicho-papão que come criança que vive interrompendo história que as mamães querem contar na hora de dormir.. Ah, cê não vai mais interromper? Então tá, vamos adiante. Além do odor fortíssimo, na hora do almoço todos os habitantes do reino das Cebolinhas choaravam. Por quê eles choravam? Calma, Guto vou chegar lá. Mas os habitantes desse reino não choravam porque gostavam, ou porque a mamãe deles tinha dado um castigo bem feio e triste – como ficar um mês sem brincar de imaginar o que vai ser quando crescer, ou porque eles eram obrigados a comer o que não gostavam, feito “certas pessoas”. Não, nada disso. Eles choravam… Sim, amor, agora eu vou dizer por que as pessoas choravam. Bom, eles choravam porque uma nuvem muito grande e molhada e branca cobria todo o reino e despejava sobre os habitantes uns pedacinhos minúsculos de saliva das cebolinhas, que falavam muito, muito, muito, enquanto tomavam café da manhã e aproveitavam para fofocar sobre as notícias que liam no jornal. O que elas liam? Não sei, amor. Deviam ler sobre o que aconteceu na novela. Isso, ou liam sobre receitas de comidas com cebolinhas. É talvez fosse isso mesmo. Bom, continuando… O quê, você quer ir no banheiro? Ai, Jesus, esse menino não fecha o olho. Não, não, tô falando que certamente as receitas eram de molho, molho de cebolinha. Isso, a mamãe tá falando da historinha ainda. Vai no banheiro, Gustavo, a mamãe te espera aqui. Só não demora. Não, a mamãe não vai contar o resto da historinha, pdoexá. Gente, tô pregada, esse menino não dorme. O que eu faço, Cristo? Tenho que pensar numa história bem chata, pra ele dormir logo… Ai, qual? Ah, já sei.. E então, fez xixi bonitinho, lavou a mão? Isso mesmo, senão a bactéria vem durante a noite e engole o Gustavo. Bom, então vamos lá, a mãe vai contar uma história incrível, pra você dormir logo. Não, a mamãe se enganou, não é pra dormir logo, é pra se divertir de montão. Vê só.  Tá preparado? Não, meu amor, não é a história do Reino das Cebolinhas. Presta atenção, mamãe vai começar: Era uma vez um machista…

Ilustração: Pupilas Gustativas